Arquidiocese de Manaus
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Comando Militar da Amazônia – Artigo publicado no Em Tempo – 10.11.2019

Recebi no final do mês de outubro um convite para participar do aniversário do Comando Militar da Amazônia. Não podendo participar pensei em escrever uma carta ao General Nardi, atual comandante. Isto porque penso que como Instituição o Exército Nacional é das mais importantes na Amazônia e gostaria de externar isto num momento histórico em que se definem os rumos de nossa região. Da carta passei à crônica, assim partilho as ideias com meus fiéis leitores.

Eu conheci o Exército no Amazonas quando bispo da Prelazia de Tefé. Antes sempre tive um conhecimento distante marcado por ideias fixas e frases feitas. Já a localização do Comando da Brigada das Missões mostra que tanto a Igreja como o Exército estiveram muito atentos a geografia do lugar. Tefé ocupa uma posição estratégica na região do Médio e Alto Solimões. Em tempos idos, a Colômbia chegou até bem perto onde o rio Japurá encontra-se com o Solimões.

Nos anos que passei em Tefé, pude conhecer sete generais. Todos homens muito bem preparados, quase todos com experiência internacional e com uma cultura acima da média. Quando cheguei eram mais velhos que eu. Quando o primeiro general mais novo que eu assumiu o comando, vi que eu estava há tempo demais a frente da Prelazia. Entendi as razões das frequentes transferências dos comandantes. Nada é pessoal, e todos tem que conhecer tudo. Quase todos os generais que conheci chegaram ao final da carreira como generais de exército, o que mostra a qualidade da liderança que é colocada na Amazônia. Alguns se tornaram meus amigos pessoais, com direito a longas conversas sobre os problemas locais, nacionais e internacionais. Confesso que aprendi muita coisa. Uma delas foi a diferença entre as forças policiais e militares.

Uma característica da Brigada sempre foi a boa convivência com o mundo civil. Quando nas nossas festas a banda do exército fazia as suas apresentações, me parecia estar em tempos messiânicos onde as armas serão trocadas por instrumentos musicais. Dois sargentos, um católico e outro da Assembleia de Deus aceitaram o desafio de ensinar música para a juventude tefeense e formaram uma geração de músicos que chegou a substituir a banda militar, tamanha a perfeição que atingiram. Em todas as ocasiões em que se fazia necessário a colaboração do Exército, nunca a sociedade recebia um não.

Vivi muitas histórias, mas a mais significativa foi uma visita que fiz a um garimpo indígena na Serra do Traíra. Ao chegarmos ao local, o pastor presbiteriano e eu fizemos um pequeno culto. Naquele lugar isolado, da Vila Bitencourt, até lá os garimpeiros levavam seis dias, a rádio que eles escutavam era a Rádio Educação Rural de Tefé, uma emissora de ondas curtas da Igreja, e na sala de estar de uma casa tinha um cartaz da Campanha da Fraternidade.

No outro dia, voltando e sobrevoando a região do Auti Paraná, ia mostrando ao general as comunidades que eu havia visitado um ano antes. Esta presença do exército sempre inibiu a guerrilha colombiana de entrar em território brasileiro. Devido as dimensões do artigo, só posso partilhar isto duma Instituição que aprendi a respeitar. Selva!

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS

JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 10.11.2019


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