Arquidiocese de Manaus
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Pe. Pedro Gabriel

Pedro Gabriel, nome forte para um homem de fibra. Primeiro, o apóstolo, rocha firme sobre a qual se ergue a Igreja. Sugere fidelidade, ardor apostólico, unidade. Gabriel, nome de Arcanjo. Enviado por Deus, lembra o cuidado que Deus tem por cada um e como intervém na história humana, fazendo dela uma história de salvação. Nordestino fazia jus ao dito que todo nordestino é um forte. Esta força se manifestou nos anos que viveu, 93. Mesmo com o aumento da expectativa de vida são ainda muito poucos os que chegam a esta idade. E permaneceu lucido até o fim.

Muito atento ao que se passava ao seu redor, quando era visitado pelo Arcebispo fazia perguntas sobre os colegas padres e assuntos pastorais, que demonstravam seu interesse pela Igreja que ele amava e, mais ainda, respeitava. Foi ordenado padre numa idade em que a maioria dos homens já se aposentavam. Primeiro estudou teologia. Tinha a cultura nordestina, que nunca deixou de ser. A última crise, que o levou à morte, começou no Ceará da sua infância e adolescência. Quando jovem já queria ser padre, mas os deveres em relação à família e à educação dos irmãos falaram mais alto. A vinda ao Amazonas para trabalhar e ganhar dinheiro estava dentro desta exigência de amor pela família.

Uma vez ordenado padre, foi viver na Paróquia Nossa Senhora das Graças, Beco do Macedo, de onde não mais sairia. Aí o conheci. Já tinha entregue a administração e os cuidados da paróquia a um outro sacerdote. Ele morava num pequeno apartamento na casa dos meninos que estavam em situação de abandono e que a justiça os enviava a ele para que tomasse conta. Estas internações provisórias se transformaram em muitos anos para alguns dos rapazes acolhidos.

As outras obras sociais que incluíam marcenaria, cursos profissionalizantes e escola de dança foram entregues nas mãos de diretores que passaram a agir com toda liberdade. Sucessivas administrações não conseguiram levar a obra à frente, muita gente tirando proveito próprio fez com que as obras entrassem em falência. Nunca o vi reclamar de alguém ou fazer acusações. Ele assistiu resignado o desmoronamento da grande estrutura que havia criado, num tempo em que se fazia caridade e não filantropia.

O padre foi um cristão acima de tudo. Ajudou a todos que podia e como podia. Muitos reconhecem nele uma paternidade espiritual e muitos atribuem o que são hoje na vida às chances que o padre deu a eles quando jovens, de se profissionalizar e ter acesso à educação formal. Foi-se Pe. Pedro Gabriel e com ele toda uma forma de se fazer caridade.

Agora temos filantropia. Tudo deve ser anotado. Até mesmo o bem espiritual deve ser medido. Tudo tem que ser contabilizado, segundo regras cada vez mais sofisticadas, tornando impossível a caridade sem segundas intenções, que confia no outro, que sabe que nem tudo pode ser contabilizado. Estamos num mundo onde todos desconfiam de todos. Foi bom ter conhecido o Pe. Pedro, sua família carnal e mais ainda sua família espiritual. Ele, no último dia, vai escutar a voz do juiz que lhe dirá: “Eu era um menino em situação de risco e abandonado, e você me acolheu, entra no meu Reino”. E ele vai olhar o Senhor com aquele olhar maroto e dizer: “Eu não fiz mais que a minha obrigação”.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 27.10.2019


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