Onde estás? – Artigo Cardeal Steiner

“Depois que Adão comeu da fruta da árvore, o Senhor Deus o chama: ‘Onde estás?’” (Gn 3,9). O livro do Gênesis, a nos recordar o afastamento, o escondimento, uma espécie de fuga de Deus. Recorda o rompimento originário, o pecado original. Original porque se apresenta no modo de ser da origem. Origem não é começo, mas o que faz iniciar, o que continua orientando, direcionando, impelindo, em todo o devir, até o seu fim.
A nossa origem: fomos gerados por Deus, segundo sua imagem e abençoados. Papa Francisco, nos ensina que a dignidade da pessoa humana “não é somente uma coisa, mas alguém”. É capaz de se conhecer, de se possuir e de, livremente, se dar e entrar em comunhão com outras pessoas… Cada pessoa é fruto de um enamoramento de Deus. Cada um é querido, querida; cada um é amado, amada. Graças a essa origem, a pessoa humana vive de três relações fundamentais, ligadas entre si: Deus, o próximo e a terra. Recorda, também que, com o pecado, essas três relações vitais romperam-se e corromperam-se, não apenas exteriormente, mas também na pessoa. A harmonia entre o criador, a humanidade e toda a criação, foi destruída pela pretensão do homem de ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como criatura limitada (cf. LS, 65-66).

O homem distanciou-se, escondeu-se de Deus. Distanciou-se daquele que o gerou, daquele é o Um, o Bem, o único Bem, o Sumo Bem, a Origem. Ao dessintonizar com o desejo amoroso de Deus de não experimentar a fruta proibida, o homem não seguiu a vontade de Deus. Dividido, tomado pela vergonha, pois rompido com Deus, sua origem, o homem foge. Foge de si mesmo, do outro e do próprio Criador. Esconde-se e entra em decadência, isto é, perde a cadência, o ritmo de Deus, de sua origem. Perde, também, o ritmo, a cadência das criaturas. Em vez de amigas, companheiras, irmãs tornam-se concorrentes e, por vezes, inimigas (a serpente do paraíso). Entra num ritmo cada vez mais acelerado e exacerbado para o nada vazio, negativo, aniquilador: o arruinamento. Assim, aquilo que era um paraíso torna-se um jardim abandonado quando não um deserto de desolação, sem dono e entregue à própria sorte (cf. Fernandes, M.A., Fassini, D.)

No entanto, Deus busca: Onde estás? Gerado, amado, Deus busca aquele que se escondeu por estar na nudez de si mesmo. É o apelo de um Pai que busca o filho perdido para que retorne, inicie o caminho de volta e permaneça face a face. A busca amorosa de Deus, faz nascer a confissão do homem: “eu me escondi!”. A confissão, tem o sentido de começo do retorno para o mistério de sua origem.
Sem jovialidade, sem alegria contida e prazerosa para com a riqueza da finitude, o homem foge para um infinito ilusório, sem comunhão com nada e com ninguém. Esconde-se no produzir e consumir, cobiçar e conquistar, angariar méritos, obter riquezas, poderes e glórias sem horizonte. Esconde-se até de si mesmo. Foge e se esconde da verdade, viver do vazio, do nada, da não verdade. Não se percebe que está nu. Pudesse perceber que necessita das vestes do Amor divino.

Cardeal Leonardo Steiner

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