Vida difusiva I – Artigo Cardeal Steiner

O Espírito Santo, Amor desprendido, puro, de Deus, é contentamento, alegria, festa da plenitude de ser como desprendimento-doação, pura gratuidade. “Ó luz eterna, que, só, repousas em ti mesma; Só, te entendes, e por ti mesma entendida; E “entendente”, te amas e sorris!” (Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, canto XXXIII). O Filho, acolhida da jovialidade que, qual lactente, na cordialidade jovial da sucção do leite materno, toma o corpo da sua existência, como fruto prenhe e perfeito da obra. O Pai, transbordância fontal da Vida: generosidade sem medida, sem fundo; gratuidade difusiva de si mesmo: Ser em sua própria jovialidade, princípio gerador do universo e de cada criatura (cf Fernandes. MA, Fassini, D., Ano B).

“Tu vês a Trindade quando vês a caridade” (Santo Agostinho, De Trinitate VIII, 8,2). Diante de uma pessoa que afirmava não ver a Trindade, o santo indicou o caminho do amor, como ventura da contemplação. Participar da vida da Trindade é mover-se em caridade, no amor. É que o amor é sempre em saída, é encontro, é outro. O amor sempre busca o outro, como o Pai busca o Filho e o Espírito Santo, O Espírito Santo busca, o Pai e o Filho, e o Filho busca o Pai e o Espírito Santo. No amor o encontro no coração do mistério trinitário que eclodiu a Criação, centrou-se na Encarnação e alcançou sua plenitude na cruz e na ressurreição, o Amor que inflama os apóstolos e os envia pelo mundo inteiro.

Quando somos incapazes de dar e receber amor, não sabemos compartilhar e dialogar, quando só escutamos a nós mesmos, resistimos a relacionar-nos com os outros, só buscando nosso próprio interesse, só desejando o poder, a competição e o triunfo, deixamos de experimentar a grandeza e a afabilidade da Trindade amorosa.

“Tu vês a Trindade quando vês a caridade”, desperta para uma grandeza toda própria como participação da vida da Trindade: viver o amor a partir da Trindade. Amar a quem não pode corresponder ao amor recebido, doar sem esperar recompensa, compadecer-se dos mais pobres e excluídos gratuitamente. No servir samaritana e despretensiosamente, a Trindade se torna papável, visível; presença! Entregar a vida para construir um mundo mais justo, fraterno, amável e digno, deixa entrever a harmonia-dinâmica da Trindade. Ao vermos o amor em movimento, em acolhimento, servindo, vemos a Trindade!

São Boaventura diz que vemos a Trindade na obra criada. Ensina que o ser humano, antes do pecado, descobria cada criatura como “testemunha que Deus é trino”. Os sinais da Trindade podia ser reconhecidos na natureza, “quando esse livro não era obscuro para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado”. Toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido, fragilizado, se não fossem usadas lentes opacas. As lentes tornaram-se opacadas pela ganância, pelo lucro, pela dominação. A obra criada tornou-se uma coisa a ser lucrada. Com a destruição do meio ambiente é um desafio tentar ler a realidade como presença trinitária (cf. Papa Francisco, LS).

Cardeal Leonardo Steiner

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