“No grito de Jesus que ainda ressoa em nós, ressoam também os abandonos dos abandonados”

No Domingo de Ramos, o cardeal Leonardo Steiner, iniciou sua homilia dizendo que “com a benção dos ramos e a procissão ingressamos com Jesus no mistério da doação, do sofrimento, da cruz e da ressurreição. Acompanhamos a Jesus montado num jumentinho ingressando na cidade de Jerusalém aclamado pelos discípulos e pelo povo, como o enviado de Deus”. Segundo o arcebispo de Manaus, “somos hoje recebidos no mistério da fé: Deus que em Jesus nos amou até a morte e morte de cruz e nos ofereceu a vida nova”.

“Jesus sobe para o lugar do sacrifício, da entrega, aclamado pelo povo e os discípulos com aclamações, mantos, ramos, júbilo, festa, alegria”, disse o presidente do Regional Norte1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, recordando o texto evangélico: “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor! … Bendito o reino de nosso pai Davi” (Mc 11,910).

Segundo o cardeal, seguindo o comentário de Fernandes e Fassini, “ao seguirmos a Jesus que entra na cidade da dor, da morte e da vida, somos despertados para a Humildade que ingressa levado por um jumentinho, trazendo a paz. Na humildade e na paz, para a humildade e para a paz. Vem montado num jumentinho, símbolo do homem que se submete carregando os fardos de seu senhor. O filho de Davi, o Prometido, o Messias que, pelo seu silêncio doido e sofrido, carregará os fardos e pecados de toda a humanidade. A paixão e morte na cruz que desfaz o ódio, a violência, a soberba, a guerra fratricida; a morte que supera as vinganças, soberbas, a ganância, a religião de si mesmo”.

“Na leitura da Paixão acompanhamos silenciosamente todo itinerário do sofrimento e da morte. E o silêncio da narrativa deu-nos a dimensão da entrega, da dor, da redenção, do amor gratuito e livre, sem medida”, disse o arcebispo de Manaus. Segundo ele, “nos comove e toca na proclamação da Paixão do Senhor as palavras do evangelista: ‘Pelas três horas da tarde, Jesus gritou com voz forte: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?’” (Mc 14,34).

Dom Leonardo refletiu sobre as palavras de Jesus “Porque me abandonaste?”, afirmando que “sente-se abandono por todos e por tudo”, e fazendo vários interrogantes: “Onde estão os discípulos, onde as multidões saciadas de pão, onde os cegos agora com olhos, onde os surdos agora ouvintes, onde os leprosos purificados e reinseridos? Onde os pássaros do céu, os lírios do campo… Onde o Pai?”. Ele respondeu que “Ele está só. Sente-se abandonado pelo Pai. Tudo perdeu. Ele na cruz com todas as cruzes! Desalentado, só, suspenso entre a terra e o céu; quase desesperançado! Sem terra e sem céu!”.

Diante disso perguntou de novo: “Pode haver angústia maior, pode haver dor maior que a solidão, o abandono?”, respondendo que “não espinhos, os cravos, a cruz, mas o abandono. O Grito de Jesus quase nos tira o folego, quase nos retira o respiro. Ele é sua Paixão. É um grito que interroga, que busca, todo-ouvido!”. Dom Leonardo citou as palavras do místico Harada sobre o abandono de Jesus: “Tudo isso, esse total abandono e fracasso, na visão da Fé, nos mostra totalmente outra paisagem: tudo de repente se vira pelo avesso: o extremo abandono é, na realidade, plenitude de amor: a profunda solidão se converte em unidade total. No momento em que parece mais desamparado, está mais do que nunca identificado com o querer divino, transparente ao Pai. Nessa fraqueza sem fim, Jesus se acha, sem reserva, ‘entregue’ ao Poder do Pai, totalmente aberto ao ato criador da Ressurreição”.

“E no grito de Jesus que ainda ressoa em nós, ressoam também os abandonos dos abandonados”, denunciou o cardeal, explicitando em exemplos concretos: “Quantos abandonados pelo Estado, quantos abandonados pelas guerras, as crianças vageando pela solidão da violência”. Segundo ele, “no grito de Jesus ressoa o silêncio dos abandonados suspensos entre o céu e a terra, pois cortados das relações familiares, com o estomago vazio, com o vazio de um horizonte que se desfez, de um céu que foi coberto e a terra devastada. Sim, irmãos e irmãos no grito de Jesus, está o silêncio dos gritos que sem som; foi se extinguiu na brutalidade de uma guerra. Quanta solidão nas vidas suspensas que apenas ainda sentem o odor da morte. E nelas irmãs e irmãos está presente Deus, pois Jesus nos ensina: ‘Em tuas mãos eu entrego o mesmo espírito!’”

O arcebispo de Manaus ressaltou, de novo seguindo o comentário de Fernandes e Fassini, que “a cruz que nos mostra a comunhão entre o abandonado e o seu Deus. Assim a cruz torna-se elo. Revela unidade. É o ponto de salto da nova criação, do novo Céu e da nova Terra. É o vir à luz da unidade primordial entre o Divino e o Humano. A cruz é a fenda, onde tudo se entrecruza e tudo se ilumina. Percussão que percute em todas as coisas, em todas as criaturas mostrando que tudo é Um no amor do Pai e do Filho. Assim, a haste vertical, nascida da terra, sobe até o céu e penetra o íntimo de Deus. A haste horizontal, cruzada e sustentada pela vertical, percorre toda a terra e invade os horizontes de toda a humanidade, de toda a história e de todo o universo, levando a todos e a tudo a salvadora jovialidade do novo Adão. E depois do grito expirou, entregou o espírito. O grito em forma de pergunta meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? revela, na dor do amor, a vida íntima de Deus em Deus: a relação entre Pai e Filho no Espírito Santo, o Sopro Santo do Amor!”.

“Quem grita, suplica, clama é aquele que se sente abandonado. Um clamor que é mais uma súplica, uma intimidade com o Deus que o abandona, a quem ele chama de “meu Deus”. Jesus o abandonado: o grito, nascido das entranhas, das profundezas do coração é um grito de intimidade de confiança; é a revelação da intimidade com o Pai: meu. Não são meras palavras, é a expressão de uma relação entre o Filho e o Pai. É a busca pelo Pai! E, depois do grito, expirou, entregou o espírito”, segundo o cardeal.

Segundo Dom Leonardo, “somos hoje tocados no íntimo mais íntimo de nós mesmos ao ouvirmos o grito de Jesus e no grito a sua relação amorosa com o Pai: meu Deus. É para nós quase expressão de nosso caminho quando nada mais temos, e nada mais podemos, e quase já não somos, buscarmos com essa quase violência o coração do Pai, e dizermos: meu Deus! Meu, porque o experimentei como meu Pai, porque vivo como filho, como filha. Não mais compreendendo não mais entendendo, tudo perdendo, ainda clamamos: meu Deus! Isso porque confiados em seu amor e na sua misericórdia. A consumação na íntima relação entre Filho e Pai, bem no cerne dessa intimidade, que é amor, e, portanto, entrega, doação, gratuidade”.

Citando o texto do Evangelho: “Então Jesus deu um forte grito e expirou!”, Dom Leonardo disse: “Tudo libertado, tudo solto, livre, a vida que se faz tudo com tudo. Agora intimidade, unidade de amor, pura relação. Nada mais fora da intimidade, não mais busca, mas comunhão transparente”.

O cardeal Steiner lembrou as palavras de São Paulo na carta aos Filipenses: “esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de escravo e tonando-se igual aos homens”, afirmando que “a leitura da paixão nos conduz para ao encontro de Jesus com o Pai, para o encontro gratuito e cordial do pai com o Filho”. Por isso, disse de novo com o texto de Filipenses: “Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo o nome”, que considera uma expressão de Amor salvação. Ele afirmou que “é por isso que dobramos os joelhos diante do crucificado e o adoramos e com Paulo confessamos: ‘Jesus Cristo é o Senhor’! Senhor da vida e da morte, servidor da vida para que possamos viver com Ele e nele”.

“Na leitura da Paixão que nos foi proclamado, na última frase, fomos surpreendidos pela confissão do oficial romano. O oficial romano, que não era crente, não era judeu, mas pagão, que o tinha visto sofrer na cruz, o tinha ouvido perdoar a todos, que tinha constatado seu amor sem medida, confessa: ‘Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus’. Ele diz exatamente o oposto dos outros. Ele diz que Deus está ali, que o Crucificado na sua morte, é verdadeiramente Deus”, disse Dom Leonardo seguindo as palavras do Papa Francisco. “Poderíamos dizer que ele testemunha em nome de todos os povos que na fragilidade do Crucificado, Deus se fez salvação. Nele vemos, finalmente o Filho do Deus!”, ressaltou.

Finalmente, o cardeal Steiner afirmou que “ao entrarmos com Jesus nesta Semana Santa no mistério da morte e da vida, somos convidados a permanecer no silêncio do grito do abandono que se torna acolhimento, recolhimento, comunhão de amor”.

Por Pe. Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

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