Amizade social: perdão

“Alguns preferem não falar de reconciliação, porque pensam que o conflito, a violência e as rupturas fazem parte do funcionamento normal duma sociedade. De fato, em qualquer grupo humano, há lutas de poder mais ou menos sutis entre vários setores. Outros defendem que dar lugar ao perdão equivale a ceder o espaço próprio para que outros dominem a situação. Por isso, consideram que é melhor manter um jogo de poder que permita assegurar um equilíbrio de forças entre os diferentes grupos. Outros consideram que a reconciliação seja empreendimento de fracos, que não são capazes dum diálogo em profundidade e por isso optam por escapar dos problemas escondendo as injustiças. Incapazes de enfrentar os problemas, preferem uma paz aparente” (Papa Francisco, FT).

Somos convidados à fraternidade e amizade social. Uma amizade social que possibilite a fraternidade, uma convivência, relações de irmãos e irmãs. Somos, no tempo da quaresma, confrontados com o modo da convivência na sociedade, mas também nas comunidades de fé e nas famílias. Confronto, porque o ensinamento de Jesus é o da fraternidade: Vós sois todos irmãos e irmãs (cf. Mt 23,8). Existem tensões próprias da convivência humana, familiar, comunitária. Essas tensões, não afastam, mas amadurecem a vida de fé e a familiar. São essas tensões, questionamentos que aproximam e enviam para horizontes novos, pois caminho de fé e caminho familiar.

O que afasta, divide, distancia, às vezes sem retorno, são as ideologias fechadas, o jogo de poder, a dominação econômica. Nesse modo surge a violência nas palavras, a incapacidade de escuta, a morte das relações, às vezes, até as mais próximas; perde-se o horizonte da justiça, mata-se a solidariedade, destroem-se as relações. A humanidade desfalece, diminui, adoece.

Mas um perdão livre e libertador que é centelha da grandeza e a imensidão do perdão divino, reconcilia, aproxima, amoriza. Um perdão gratuito, sem trocas, como o de Jesus. Esse perdão abre novos caminhos, cuida do bem comum, ultrapassa as ideologias endurecidas, rancorosas,  e rompe o círculo vicioso do rancor e da vingança. É nessa grandeza e delicadeza da liberdade e da gratuidade que o perdão pode ser oferecido a quem é incapaz de pedir perdão.

A fraternidade, a amizade social passa pela reconciliação, pelo perdão. A reconciliação, o perdão têm passos. Os passos de encontro, de escuta, de olhos nos olhos, mas especialmente, abertura para que o amor possa se manifestar. O amor com pequenos e grandes gestos reconciliam as relações e oferecem o perdão. Em meio a um contexto de relações envenenadas e corrompidas, os gestos, os pequenos sinais de amor fazem nascer a solidariedade, o perdão, a fraternidade.

Continuemos a propor a reconciliação, o perdão. Servir à fraternidade, à familiaridade, é próprio dos bem-aventurados, dos que caminham pelo caminho da paz, do consolo, da justiça. Francisco de Assis canta a fraternidade universal: “Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados” (Cântico do Irmão sol).

Cardeal Leonardo Steiner

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