Cidadania – Artigo Cardeal Steiner

A Assembleia Legislativa do Amazonas, representação do povo, oficializou a pertença a uma paisagem que aprendi admirar e viver. Agradeço ao Deputado Sinésio Campos a propositura e à Assembleia Legislativa de nosso Estado, o título de Cidadão Amazonense que me foi conferido. Ser cidadão amazonense obriga-me a entrar no movimento do cuidado da paisagem que acolhe e deixa ser.

Nasci e vivi a infância em outra paisagem. A planície quase marítima, emoldurada pela imponência da Serra do Mar! Ao contemplar as montanhas sonhava com a silhueta atrativa e admirável do frade adormecido. Os agricultores com as mãos calejadas, a pequena comunidade do interior, o cultivo escolar e a vida forjada na fé, gerou uma pertença. Aquela paisagem poetada: o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria como bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo (cf. Thiago de Mello). A paisagem não desaparece, mas nos situa existencialmente, e é ela a nos carregar e iluminar, deixa-ser.

A paisagem amazônica a qual vou pertencendo, tem sua grandeza e se revela humilde-alegre, cheia de verdor, de esperança, na cultura, na poesia, na música, na fé, na exuberância das matas, nas águas encantadoras, na diversidade biológica. Ela guarda interioridade, confere contornos de harmonia com todos e com tudo. A paisagem de proximidade humana alegre, a vida indígena e cabocla com a cor da pele, os olhos esperançados e humildes. Essa paisagem de simpatia, empatia que nos faz sentir em casa, admirar o quase sem-confim. A ela pertenço! Ela deixa-me ser cidadão do Amazonas.

Ser cidadão de uma paisagem, faz crescer a percepção da existência de muitas pessoas sem cidadania. Não pelo título, mas pelo esquecimento e descarte do ser pessoa que acaba vivendo sem direitos. Uma vida à margem, pois pertencer é habitar, participar. Participar na saúde, na cultura, no lazer, na educação, na moradia; participar da esperança!

“No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta. (Cecília Meireles)

No mistério do sem-fim tudo habita, e no canteiro da cotidianidade cresce e floresce a violeta da nossa humanidade artesanal. No mistério e no canteiro pertence e habita a casa. Por pertencer e viver no canteiro, vê crescer a destruição da paisagem. Se destrói a Casa Comum, as relações ambientais, as relações de justiça, as relações religiosas, as relações políticas, as relações originárias. A pertença busca cuidar da paisagem que oferece vida digna, harmonia, justiça, fraternidade, esperança; uma paisagem onde o Mistério se deixa ver, pois os lírios do campo e os pássaros do céu continuam a voar e a florir (cf. Mt 6,26-30). Não sabemos até quando!

Espero honrar o título que me foi conferido. “Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro” (Tiago de Melo, Para os que virão), para que todos possam ser cidadãos da terra e do céu. Deus abençoe o Amazonas! 

Cardeal Leonardo Steiner

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