Dai-lhes vós de comer!

“Sensibilizar a sociedade e a Igreja para enfrentarem o flagelo da fome, sofrido por uma multidão de irmãos e irmãs, por meio de compromissos que transformem esta realidade a partir do Evangelho de Jesus Cristo.” (Objetivo Geral da CF 2023) Estamos celebrando no tempo da Quaresma a Campanha da Fraternidade, CF. Tem como tema Fraternidade e Fome, com o lema bíblico: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

A CF foi realizada, pela primeira vez, na Quaresma de 1962, em Natal, RN. No ano seguinte, dezesseis dioceses do Nordeste realizaram a Campanha. Foi o embrião de um projeto anual das Igrejas Particulares no Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, que persiste até hoje. Com o tempo, começou a ser redigido um subsídio, para a organização anual da CF.

Com o intuito da CF permanecer na sua dinâmica original, foram elaborados objetivos permanentes: 1. Despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; 2. educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; 3. renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja). (cf. CF 2018, Fraternidade e superação da violência)

Porque a CF acontece no tempo da quaresma? A CF deseja expressar o caminho da conversão, da mudança, da transformação que a quaresma oferece. Um caminhar com Jesus que, assumindo a dor e sofrimento, salva e redime, inaugurando a vida nova do Reino com a Ressurreição.

A CF deseja despertar em cada seguidor e seguidora de Jesus essa dinamicidade da mudança de vida, de transformação. Uma fraternidade onde todos tenham uma vida digna, justa, onde todos são irmãos e irmãs. Onde o alimento pertence a todos, onde a saúde é acessível a todos, onde a cultura é manifestação de todos, onde o lazer é possibilitado a todos. As diferenças gritantes entre os que podem e tem e entre os que não podem e não tem, é gritante. Não existe fraternidade! São 33 milhões de pessoas com fome no Brasil. Não haverá fraternidade enquanto irmãs e irmãos passam fome, morrem de fome. Onde não há espaço para todos na educação, na cultura e no lazer.

Uma mudança profunda, estrutural, para que todos vivam em dignidade. Ninguém passe fome! Uma mudança nas políticas públicas, que não seja meramente assistencial, mas participativa. Uma mudança no sistema da econômica, onde os pobres e famintos não sejam número, não são lucro, mas a razão de ser da economia.

As imagens das crianças Yanomami pudessem acordar para a verdadeira fraternidade onde as culturas e povos possam viver a seu modo e não sejam exploradas as suas terras, privando de água potável, de animais, de plantio, de peixe. Seria salutar que o Evangelho, no tempo da quaresma, nos despertasse para a grandeza da fraternidade que constrói, acolhe, deixa florescer a vida, cuida das culturas, deixa as crianças sorrir e correr!
“Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

Cardeal Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus

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