Artigo – Bem aventurada, Bem-nascida

Na tarde da sexta-feira, 24 de outubro de 1941, Benigna foi à fonte, em busca de água. Conhecia o caminho para matar a sede, servir aos da casa, regar as plantas. Lugar da água, da vida, tornou-se lugar da agressão, da violência, torna-se lugar da morte. Lugar da morte, fonte de resistência, de transparência, de fortaleza, de dignidade. Junto à fonte, Benigna oferece a sua vida na fidelidade a Jesus.
A menina-jovem, havia encontrado outro poço, outra fonte: Jesus! Infância pobre, sem pai e sem mãe, com os irmãos criada por almas generosas, encontrou a Fonte. Foi junto a Jesus, fonte de água viva, que encontrou o sentido de vida, conforto, guarida, cuidado de Deus. Foi para a fonte Jesus que Benigna voltou sempre, pois bebia da Palavra de Deus e se alimentava da Eucaristia. Ela tinha fonte, sabia onde estava a razão de sua vida, a sua segurança.
É admirável que na sua tenra idade lia as histórias da Sagrada Escritura, participava da comunidade, estava no cuidado das tias doentes, mesmo sendo assediada e aconselhada a afastar-se para outro local. Cresceu na bondade, na generosidade, no cuidado das pessoas idosas, aprendeu na infância a amar Jesus! O seu amor, a sua misericórdia, a levou ao martírio. Atraente essa jovem-menina que ao beber da fonte, se deixa conduzir pelo amor límpido, transparente, casto, generoso, humilde, serviçal. Como Bem-aventurada, fonte de vida, de inspiração, de dignidade e de santidade, testemunha do amor e da fidelidade a Jesus.
No Livro do Cântico dos Cânticos lemos: “o amor é forte como a morte” (Ct 8,6-7)! Sim, o amor é forte como a morte. O amor é mais forte que a morte. O amor enfrenta a morte, permanece vivo na morte. Junto ao poço vemos a determinação, a força, o vigor, a ousadia, a coragem, a candura da jovem-menina diante da agressão. O amor permanece vivo na morte! Na Bem-aventurada se expressa o amor na morte, um amor fiel, límpido, puro, virginal; o amor, mais forte que a morte. Admirável a sua tenacidade, a sua determinação, a luta corporal para permanecer fiel a Jesus. Sim, o amor vence a morte! Na morte vemos e percebemos a grandeza transparente e forte do amor benigno, a suavidade, a ternura de Deus.
Benigna, a bem-nascida! O nome Begnina (de Bene = bem; gingnere = gerar; bem-gerada) bem gerada, a bem-nascida! A Bem-nascida, a Bem-aventurada, indicadora e defensora da dignidade da mulher. Benigna exemplo de não subjugação das mulheres, defensora da própria força e valor, da dignidade e da beleza, da sexualidade e da maternidade, do vigor e da ternura. Preferiu a morte que a paixão, preferiu a morte que romper com a sua dignidade.
Bem-aventurada ilumina-nos com o teu amor, faz-nos perseverar no amor generoso, casto. Ó Bem-aventurada, protege e intercede por nossas crianças e adolescentes. As nossas crianças sejam cuidadas e amadas, as nossas adolescentes, respeitadas e maturadas. Ajuda-nos a superar o sofrimento dos abusos sexuais e do feminicídio. O teu nascimento no martírio, a tua presença transparente, ó bem-aventurada-aventurada, nos desperte para a dignidade da mulher e a superação do abuso das crianças e adolescentes!
Hoje contemplamos e invocamos a bem-gerada da Palavra de Deus, da Eucaristia, do cuidado às pessoas necessitadas, como defensora da dignidade de mulher, como ícone contra o abuso sexual de crianças e adolescentes, como a menina da misericordiosa no cuidado para com as pessoas idosas, como indicadora do caminho da pureza, da liberdade, da santidade.

Cardeal Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus

*Publicado Jornal Em Tempo – 30 e 31/10/2022

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