A Política tem sentido?

“Falei como se o domínio político não fosse mais do que um campo de batalha de interesses parciais e adversos, onde nada contaria além do prazer e do lucro, do espírito partidário e do desejo de dominação. Em resumo, falei da política como se, também eu, acreditasse que todos os assuntos públicos são governados pelo interesse e o poder, e não existisse, em caso algum, domínio político se fôssemos obrigados a preocupar-nos com as necessidades da vida. (…) Nesta perspectiva, permanecemos na ignorância do conteúdo real da vida política – da alegria e da satisfação que nascem do fato de estarmos em companhia dos nossos semelhantes, de agir em conjunto e de aparecermos em público, de nos inserirmos no mundo pela palavra e pela ação, e assim adquirirmos e sustentarmos a nossa identidade pessoal e começarmos qualquer coisa inteiramente nova. (…) Conceptualmente, podemos chamar verdade àquilo que não podemos mudar; metaforicamente, ela é o solo sobre o qual nos mantemos e o céu que se estende por cima de nós.” (Hannah Arendt, Verdade e Política)

No tempo das eleições cresce a percepção de que o domínio político não é mais que um campo de batalha de interesses parciais e adversos, de ideologia religiosas, onde nada conta além do prazer, do poder e do lucro, do espírito partidário e do desejo de dominação. A avalanche das notícias falsas como expressão de um modo de fazer política, degrada as relações, falseia a religião como expressão da fé, faz crescer a violência, o antagonismo, leva ao esquecimento os elementos fundamentais da política e do sentido das eleições, do voto.

A verdade na qual se fundamenta a verdade de cada pessoa, não suporta a violência contra a pessoa do outro. Não só porque a notícia falsa seja antiética, mas também porque destrói e atinge os fundamentos do sentido da política. A destruição do outro que visand o poder, a dominação, é ideologia doentia. Difícil suportar e aceitar que a religião seja usada para atacar e destruir pessoas na sua dignidade. A religião com expressão da fé é pela dignidade da pessoa, pela fraternidade da sociedade, pela paz nas relações, mesmo que sejam tensas.

“Como cristãos, afirma Papa Francisco, precisamos sempre confrontar nossas ideias com a profundidade da realidade, se não quisermos construir na areia que mais cedo ou mais tarde acaba cedendo. Não nos esqueçamos de que “a realidade é mais importante do que a ideia”. (…) Não se esqueçam que a realidade é mais importante do que a ideia: não se pode fazer política com ideologia. O todo é maior que a parte, e a unidade é maior que o conflito. Buscar sempre a unidade e não se perder no conflito. (Papa Francisco)

A política tem sentido, o tempo das eleições é necessária para a construção de uma sociedade justa, fraterna, ambiental. Tudo que visa a destruição das relações, que eleva a injustiça, que descarta os pobres, que agride o meio ambiente, que não respeita os povos originários, que visa apenas o poder não é política.

Cardeal Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus

*Artigo publicado no Jornal Em Tempo – 22 e 23/10/2022

Gostou? Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram

Comentários