A graça da palavra

Os mundos, os céus, as alturas, as profundezas, os sonhos, as realidades são colhidas na palavra. Não vivemos sem a palavra. Existe uma espécie de segredo na Palavra. Ela tem força própria, cria e recria, deixa ser todas as coisas. Ela nem sequer necessita ser pronunciada, pois ela não necessita de sons para ser ouvida.

A palavra é a força de uma presença, uma força salvadora, libertadora. A palavra mãe, a palavra pai, a palavra filho, Deus, Espírito Santo, Pai, Jesus, Maria, te amo, perdão, são palavras início, que dão início, estão no início; são fundamento de relações. Palavras que remetem para a profundidade do existir. Palavras que evocam o constituir da vida, dos elos, dos sentidos. Perdendo as palavras fundamentais, do início, do princípio, nos desenraizamos, perdemos o eixo de nosso existir. São palavras que deixam habitar céu e terra, divinos e mortais de nossa existência. É a palavra movendo todas as coisas.

Na palavra e pela palavra a outra pessoa nos vem ao encontro e nós a encontramos. Na palavra soa o que somos. O que somos na palavra que enviamos e na palavra que nos vem ao encontro. Palavra é encontro!

“E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós e nós contemplamos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). A palavra que nos veio ao encontro nos diz quanto somos desejados e amados por Deus. O Pai nos concede a Palavra e nos enviou a Palavra, o Filho-Palavra, Jesus. “Eis por que, tendo falado outrora a nossos pais muitas vezes e de muitos modos por intermédio dos profetas, nestes últimos tempos nos falastes pelo vosso Filho, pelo vosso Verbo; por ele é que os céus foram criados, e pelo sopro de seus lábios, todo o universo (Sl 32,6)” (Guilherme de Saint-Thierry, Tratado sobre a contemplação de Deus). Não nos falam mais profetas, mas o Filho-Palavra. E Jesus, a Palavra do Pai nos falou de muitos modos com gestos, palavras, curas, olhares, silêncio, prece. Ele a palavra do Pai em nosso mundo. A Palavra quer pela morte e ressurreição transformou todo o universo.

Papa Francisco nos diz que a “Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que não a podemos prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (cf. Mc4,26-29). A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas” (EG, 22).

No Brasil, setembro para a Igreja Católica é o mês da Bíblia. Ocasião de ler, meditar a Palavra de Deus com mais intensidade, mas também para aprofundar o sentido da Palavra. Para este mês foi escolhido é o livro de Josué para estudo e reflexão. Josué, termo em hebraico que significa “O Senhor salva”. O lema bíblico inspirador para o mês: “O Senhor, teu Deus, estará contigo por onde quer que vás” (Js 1,9).

Na Palavra, Deus vem ao encontro e na escuta da Palavra saímos ao seu encontro. A leitura e meditação da Palavra de Deus é sempre um encontro. Encontro de escuta e porque escuta, indica caminho, alimenta esperança, confirma a fé.

Assim, “guardemos a Palavra: não percamos a palavra concebida em nosso íntimo” (Santo Agostinho).

Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus

Publicado no Jornal Em Tempo de 3 e 4/9/22

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