Arquidiocese de Manaus

Ressuscitou: esperança! – Homilia da Solenidade da Páscoa proclamada por Dom Leonardo Steiner

Ressuscitou: esperança!

Jo 20, 1-9

“Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. A Igreja canta, clama: Jesus ressuscitou! Louvemos a Deus, Aleluia! Louvemos a Deus que fez por nós maravilhas, na morte nos ofereceu a liberdade. Aleluia!

Amados irmãos e irmãs, feliz Páscoa! Cristo ressuscitou! Que esse anúncio chegue a todos, a cada casa, a cada família, especialmente aos que sofrem com a guerra, com os conflitos, o desemprego, a fome, onde há mais sofrimento, dor, desespero, doença. Jesus ressuscitou, há esperança! O amor venceu, venceu a misericórdia! A morte já não tem poder, o mal foi vencido pelo amor e pela bondade!

Maria Madalena vai na escura madrugada ao encontro do Senhor no túmulo o encontra vazio. Pedro e João correm ao sepulcro e, no vazio, encontra os sinais da presença. Nos sinais de sua presença passada, agora a sua ausência. Ausência, sinal maior de sua presença. Nova presença, a superação da morte! Esperança!

No túmulo depositamos os mortos, para dar-lhes um lugar digno, como fizeram o descido da Cruz. E Madalena a lamentar: tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram. Sim o tiraram do túmulo. Não permaneceu no túmulo da morte, saiu da morte para vida! A vida venceu a morte! A morte já não tem poder sobre ele. Ele agora verdadeiramente transfigurado, humano-divinizado; rompe, abre os túmulos.

O túmulo guardava o corpo, já não guarda mais. O túmulo era ainda uma referência de presença, já não é mais. O túmulo era última recordação da presença do mestre, já não mais. Uma alma vazia, uma alma livre (Mestre Eckhart), está pronta para o encontro com o amor que não é amado; uma alma livre, esvaziada, despojada, onde foi removida a pedra da entrada, que não guarda mais as exterioridades, que não mais vive dos sinais aparentes de faixa e panos, se apressa, corre na espera de que o amado venha, bata à porta e entre. A alma livre desejosa, amante, corre o risco do encontro.

Na homilia da Páscoa Santo Agostinho dizia a seus irmãos e irmãs: “amados, vamos celebrar cada dia da Páscoa e meditar assiduamente todas estas coisas. A importância que atribuímos a estes dias não deve ser tal que nos levará a negligenciar, senão a lembrança da paixão e ressurreição do Senhor, quando todos os dias sejamos nutridos com seu corpo e sangue; No entanto, nestas festividades a lembrança de Cristo é mais brilhante, mais intensa, e a renovação, mais alegre, porque a cada ano nos traz, diante dos olhos, a memória desses eventos. Celebrem, portanto, esta festa como uma transição e pensem que o reino futuro deve permanecer para sempre. Se nós, cheios de alegria nestes dias passageiros, nos lembramos com devoção da solene paixão e ressurreição de Cristo, – quão feliz nos fará o dia eterno quando vamos vê-lo e permanecer com Ele? Dia cujo desejo somente gera uma grande expectativa e nos dá alegria.” (Sermão no tempo pascal)

Como entrarmos na expectativa, e cantar o hino da alegria pela ressurreição se existem tantas situações deprimentes, desertos; desgraças, doenças, tráfico de pessoas, guerras, destruições, mutilações, vinganças, ódio, violência? Onde está o Ressuscitado? Nós que ainda não superamos o deserto da pandemia, vemos alastrar-se o deserto da guerra, da morte. Quantos desertos atravessa o ser humano ainda hoje! Mas, a celebração o Ressuscitado, a Misericórdia de Deus, nos lembra a palavra de Ezequiel: Ele pode “fazer florir mesmo a terra mais árida, pode devolver a vida aos ossos ressequidos (cf. Ez 37, 1-14).”

Jesus ressuscitou, significa que o amor de Deus é mais forte que o mal e a própria morte; significa que o amor de Deus pode transformar a nossa vida, fazer florir o deserto. O deserto dos corações, o deserto que se alastra na destruição da terra, o meio-ambiente. Sim, o universo recebeu a graça da vida nova, pois o amor é transformativo, plenificador. O amor de Deus que se fez nossa humanidade e percorreu o caminho da humildade, da dor, do sofrer, do dom de si mesmo, até a morada dos mortos, ao abismo da separação de Deus. O amor misericordioso inundou de luz e vida o corpo morto de Jesus e transfigurou-o, ressuscitando-o de entre os mortos. Jesus agora ilumina a nossa humanidade, abrindo-nos um futuro de esperança. (cf. Papa Francisco, Páscoa, 31/03/2013)

Com a morte e a ressurreição Jesus conquistou-nos o direito à esperança. “É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo (…). É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos. Tudo correrá bem: repetimos com tenacidade nestas semanas, agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento. Mas, à medida que os dias passam e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida.” (Vigília da Páscoa, 2020)

Talvez, por isso Santo Irineu a nos dizer: “Eis o que é a Páscoa: é o êxodo, a passagem do homem da escravidão do pecado, do mal, à liberdade do amor, do bem. Porque Deus é vida, somente vida, e a sua glória somos nós: o homem vivo (cf. Irineu, Adversus haereses, 4, 20, 5-7).

Nos Atos dos Apóstolos (At 10,40-43), São Pedro memorava como Jesus se manifestou, depois da ressurreição, a ele e aos outros discípulos. Nos dizia que depois da ressurreição, comemos e bebemos com Jesus, fomos seus convivas, fomos seguidores, estivermos na sua proximidade, na sua intimidade, na sua familiaridade. Tudo para nos dizer que a ressurreição não é um ouvir dizer, eles me disseram, eles contaram, eu li a respeito. Afirma: nós comemos e bebemos com ele! Mais, Pedro a confirmar que Jesus lhes deu o mandato, o mandamento do anúncio, de serem testemunhas da vida que supera a morte. Anunciadores de que ele é o sinalizador, o iluminador, dos vivos e dos mortos. Os mortos que nele, agora vivos.

O Senhor ressurgiu, aleluia! Por isso, como nos disse São Paulo: “aspirai às coisas celestes e não às coisas da terra. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,2-3). O Senhor da Luz, o vencedor da morte nos convida a uma vida nova. Profundamente encarnada, transformada, transfigurada em Cristo: “vós fostes revestidos de Cristo” (Cl 3,4).

Desejamos ter sempre diante de nossos olhos, aquele que na morte fez-se vida para todo o universo. Ele a guiar nossos passos nas intempéries e dificuldades. Como nos lembra a carta aos colossenses: “Irmãos: se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde Cristo, sentado está à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. (…) Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.” (Cl 3,1-4)

Recebemos a graça de crer no Ressuscitado, vivamos como pessoas da vida nova, como pessoas de esperança. Vivamos como seguidores e seguidoras de Jesus. Sigamos seus passos, mesmo no vazio. No vazio também o encontraremos, onde nos mostra, na sua benevolência, a graça, a plenitude de vida.

Faça-se ouvir o cântico novo: Exulte o céu de alegria, a multidão dos Anjos se alegra e anuncia a vitória do Ressuscitado. Rejubila a terra, inundada de claridade da luz de Cristo, que dissipa as trevas. Alegre-se a Igreja, nossa mãe, adornada com a luminosidade do Ressuscitado e que deixa ressoar através dos séculos a alegria dos viventes. A noite agora brilha como o dia e a escuridão fez-se clara como a luz. O Ressuscitado as culpas, restitui a inocência aos pecadores, concede alegria aos tristes, derruba os orgulhosos e cheios de poder, dissolve os ódios, oferece a concórdia, a fraternidade, a justiça, a paz. O Ressuscitado ilumine todas as mulheres e todos os homens, a todos nós com a sua luz e a sua paz. Ele e viva e reine para sempre. Amém.

Dom Leonardo Steiner – Arcebispo Metropolitano de Manaus


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