Arquidiocese de Manaus

Paz, paz… – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 19 e 20/3/2022

Paz! Educar para a paz! “Há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados (…). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança” (Bento XVI, Mensagem, 01/01/2013).

A violência experimentada em nossos dias, leva a refletir educação e paz. Educar para a paz! A guerra está presente, além do conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia, na humanidade. Os conflitos ideológicos a suscitar violência armada, violência de palavras, violência em relação às mulheres, violência em relação à pobreza, violência em relação aos povos originários, a violência em relação ao meio ambiente. As ideologias e o mercado perderam a capacidade de diálogo, de ler o próprio da convivência humana, o respeito pela pessoa, a construção da fraternidade, a preservação da justiça, o cuidado com a diversidade cultural e religiosa.

A palavra paz a expressar o completo, o íntegro, o sadio, o concluído, o levado à plenitude (Jesús Peláez). Paz como vida harmônica na tensão e na diversidade; o desenvolvimento humano que encaminha para a maturidade e a completude. Paz como movimento, busca de uma vida harmônica que permite o pleno desenvolvimento do ser humano. Paz – Pag (indoeuropeo), unir, pacificar, ajustar. Viver na harmonia tensionada ou uma tensão harmonizada. Aquele movimento de ser completo, estar repleto ou pleno (Shalem). O pleno mantém a diversidade em comunhão, em fraternidade.

Paz como diversidade em comunhão, em fraternidade, necessita da justiça e do amor. A paz como direito, ou direito à paz baseada na justiça e na solidariedade. A justiça como ajustado, o próprio o necessário, o dialogado. À justiça é necessário o amor. A lei, os tratados não asseguram uma paz duradoura e verdadeira. O direito é a via para se chegar à paz. Mas o direito se não estiver fundado no amor não assegura a paz. A justiça deve estar baseada na relação de solidariedade, de fraternidade, isto é, do amor.

“Justiça e amor aparecem às vezes como forças antagonistas, quando, na verdade, não passam de duas faces duma mesma realidade, duas dimensões da existência humana que devem completar-se reciprocamente. É a experiência histórica que o confirma, mostrando como frequentemente a justiça não consegue libertar-se do rancor, do ódio e até da crueldade. A justiça, sozinha, não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor.” (João Paulo II, Mensagem Dia Mundial da Paz, 2004)

Percebe-se a necessidade do amor que passa pelo perdão. Não há paz sem perdão. A justiça, os tratados, os acordos devem ter como base o amor que reconcilia e harmoniza as relações. Onde há perdão, a “civilização do amor”, a paz expressa o íntegro, o pleno. Capaz de suportar as tensões e os movimentos de encontro e desencontro.

 

Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus


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