Arquidiocese de Manaus

Pobres sempre tereis – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 13 e 14.11.2021

“Quem é generoso não deve pedir contas do comportamento, mas somente melhorar a condição de pobreza e satisfazer a necessidade. O pobre só tem uma defesa: a sua pobreza e a condição de necessidade em que se encontra. Não lhe peças mais nada; mesmo que fosse o homem mais malvado do mundo, se lhe vier a faltar o alimento necessário, libertemo-lo da fome. (…) O homem misericordioso é um porto para quem está em necessidade: o porto acolhe e liberta do perigo todos os náufragos, sejam eles malfeitores, bons ou como forem. Aos que se encontram em perigo, o porto acolhe-os, coloca-os em segurança dentro da sua enseada. Também tu, portanto, quando vês por terra um homem que sofreu o naufrágio da pobreza, não o julgues, nem lhe peças conta do seu comportamento, mas liberta-o da desventura” (São João Crisóstomo, Discursos sobre o pobre Lázaro, II, 5). 

Ao celebrarmos o dia Mundial dos Pobres, temos presente que “Sempre tereis pobres entre vós” (Mc 14, 7). O dia Mundial dos pobres procura fazer emergir a beleza do humano em cada um de nós: o amor e a liberdade. A mão estendida, o coração livre que sai ao encontro do necessitado, do pobre, é a visualização do ser pessoa; do ser filha e filho de Deus. Aquela nobreza que nos deixa com os traços de Deus.

Um dia que nos ajuda, como Igreja, a despertar para a carne sofrida de Jesus. Como nos ensina Papa Francisco, a nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica dos pobres e colocá-los no centro da missão da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro, considerando-o como um só consigo mesmo. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo de procurar efetivamente o seu bem. (Evangelii gaudium, 198-199) 

O dia do Pobre pode espertar para a vida nova, sair do frio, da solidão, para a solidariedade, para o amor que partilha pelos quatro cantos da terra. Como anjos enviados para anunciar a vida nova do Reino. Nos pobres Jesus está próximo, sempre tão próximo, à porta e bate. Ele, o pobre, nos pobres. Deixar crescer a solidariedade e a caridade! A tendência é ignorar as situações dolorosas, cobri-las, escondê-las. Gastam-se muitas energias para escapar das situações, onde está presente o sofrimento, julgando que é possível dissimular a realidade, onde nunca pode faltar a cruz. Só pode ser consolada e feliz a pessoa que está com a consolação de Jesus e não com a do mundo… Essa pessoa sente que o outro é carne da sua carne, por isso não teme aproximar-se até tocar a sua ferida, compadece-se até sentir que as distâncias são superadas. (Mensagem, Dia Mundial dos Pobres, 2021)

Como anima, purifica e enobrece a palavra que nos indica o caminho dos pobres: “Se houver junto de ti um indigente, um pobre entre os teus irmãos, não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado. Abre-lhe a tua mão, empresta de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe faltar. Oferece sem que o teu coração fique pesaroso. O Senhor, teu Deus, te abençoará!” (Dt 15, 7-8.10-11).

 

Dom Leonardo Steiner

Arcebispo de Manaus


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