Da utilidade do inútil – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 09 e 10.10.2021

“Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus. Senhor, eu tenho orgulho do imprestável! Venho de nobres que empobreceram. (…) Restou-me por fortuna a soberbia. Com esta doença de grandezas: Hei de monumentar os insetos! (Cristo monumentou a Humildade quando beijou os pés dos seus discípulos. São Francisco monumentou as aves. Vieira, os peixes. Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos. Charles Chaplin monumentou os vagabundos.) Com esta mania de grandeza: Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.” (Manoel de Barros, Livro sobre o Nada)

Onde o sentido da vida? Onde o sabor de viver? Onde a razão de existir? Simplesmente existir, viver? No Evangelho de Marcos (Mc 10, 7-16), enquanto Jesus caminha, vem-lhe correndo ao encontro um homem que lhe pergunta: “Que devo fazer para ganhar a vida eterna?” O homem busca e é disponível: que o meu fazer, meu viver, tenha gosto de eternidade, de vida eterna. Uma pessoa extraordinariamente boa e correta: Cuidou da vida, viveu fielmente o amor, o próprio de cada pessoa soube resguardar, elevou a dignidade do próximo, ofereceu justiça a todos, do pai e da mãe foi filho fiel e os honrou!

Havia intuído que poderia ser mais, que a vida tinha mais sentido, que havia em Jesus um viver que era bem mais que ser bondoso, caritativo, correto. Jesus percebendo a grandeza do coração lhe diz com amor: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres; e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” Seguir os mandamentos era tão extraordinário, que Jesus propõe um passo a mais: viver na liberdade, do amor, segui-lo. Seguir tem a força e vigor de uma ruptura, de dar um salto mortal! O salto existencial inigualável é morrer para si mesmo a fim de viver com Cristo, de Cristo, entrar no seu seguimento.

Diante do convite, qual a reação? Desapareceu a ligeireza, a prontidão, a disponibilidade, a busca. Distanciou-se de Jesus cabisbaixo, com ar de frustração, lentamente. Sobrou a tristeza, a lentidão dos passos. Tinha dado a impressão que era livre, pronto. Mas não; carregava demais, a sua vida tinha amarras, saiu desiludido. Não descobriu que o tesouro do viver, a vida eterna, é feita da utilidade do inútil a liberdade, a gratuidade. Viver na soltura, da despretensão e, por isso, com coração generoso, livre, compassivo, misericordioso; o modo de viver como o da vida eterna.

No filme “Francesco”, Francisco criança, sobe na árvore, dependura-se pelas pernas em um galho. De cabeça para baixo, admira as casas, as árvores, os animais e as pessoas de Assis com seus fundamentos, suas raízes e pernas presas e pendentes da abóboda celeste. E, criança, feito alegria, rindo, exclama: “É o céu que tem e governa a terra, o mundo, as pessoas!” O olhar-criança via a realidade a partir do céu. Quem nos sustem, quem nos governa, que nos deixa mover, ser? O céu! Sim, o céu, a vida eterna! O lampejo infantil tornou-se pobreza, minoridade, liberdade, gratuidade!

“É o céu que tem e governa a terra, o mundo, as pessoas!” O convite que Jesus oferece coloca de cabeça para baixo como o menino Francisco. É o olhar da sabedoria, o olhar de Deus: livre, benévolo, atraente, comovente, inspirador, gratuito. Aquele olhar que já não está mais preso à posse, ao poder, mas à graça e à benevolência da gratuidade da vida. O olhar-criança que vê a realidade a partir do céu que sustem, governa, que move, deixa ser! Admira, canta, pois desapropriado, despossuído do inútil. O lampejo infantil da simplicidade, da liberdade, da gratuidade! Como Deus!

Dom Leonardo Steiner

Arcebispo de Manaus

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