Arquidiocese de Manaus

Do coração – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 02 e 03.10.2021

O pensador hebreu Buber sonda a grandeza da relação Eu-Tu, Tu-Eu (M. Buber, Io e Tu). O encontro entre o Eu-Tu, outro é somente Tu e enche o céu e a terra. Não porque não existe nenhum outro, mas porque tudo vive na luminosidade do Tu. Viver na luminosidade do Tu é ainda dizer do acontecer do primeiro encontro. Assim, a verdadeira relação entre o Eu e o Tu, nasce do encontro. E na medida que se distancia do primeiro encontro, do primeiro amor, do toque do amor, o coração endurece e o Tu perde o seu rosto luminoso, harmonioso e se torna empecilho do Eu.

No Evangelho de Marcos Jesus, diante da pergunta da carta de separação, ensina: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. O que Deus uniu, o homem não separe!” (Mc 10, 7-16) Jesus a recordar que no começo da criação não era assim. Na criação, quer dizer, no princípio, no começo, no início, no principiar, no toque primeiro, no despertar, na essência, no fundamento, na iluminação, o coração não era duro.

No princípio, no início, na criação, no aparecer, no seu manifestar, no dar-se, no florir, a alma humana, o coração era suave, receptivo, gratuito. Não perguntava pela carta de divórcio. No princípio, no seu início, na sua essência, na sua verdade, a alma humana, o coração não era duro, não era murmurante. Era ali nascente, pulsante, pungente, fonte, puro, transparente, translúcido, simples, doado, aberto. Um coração livre, receptivo. Tão livre e receptivo que fazia o todo da pessoa caminhar com suavidade e disponibilidade; sem medos, sem fechamentos. Esquecidos da origem, da criação, a mulher e o homem, como seres diferenciados, como dispostos e expostos ao encontro de um Eu com o um Tu, perdem o olhar da origem.  O ser humano na sua relação muitas vezes se torna uma coisa, não mais um Tu com quem me relaciono e possuidor do mesmo coração da ternura de Deus.

O coração nascido da ternura encontra com o Tu como graça. Percebe o Tu que vem ao encontro como graça. Sim graça, pois me torno Eu, no Tu que me vem ao encontro de modo, às vezes, inesperado. Me torno um Eu quando digo, pronuncio, vivo, o Tu: Tu és a minha graça! E no coração endurecido o tu coisificado se torna uma des-graça.

O que acontece com a dureza do coração? Coração endurecido, paralisa o centro vital da vida, o sentido impulsionador e revitalizador de ser. Deixa de pulsar o núcleo do ser, da pessoa. Um coração duro perdeu a sensibilidade, a vitalidade; duro é o coração incapaz de perdoar, de recomeçar. Endurecido, às vezes, pelo sofrimento, pelo desencanto, pela traição, pela desilusão. O coração endurecido perdeu a grandeza do primeiro encontro, do primeiro amor. O amor primeiro que arrebatou, que fez ver todas as coisas de modo grandioso, belo, sereno, transparente. O coração tomado pelo primeiro amor vê diferenças, tudo perdoa, tudo crê, tudo releva, tudo suporta. O coração tocado pelo amor é o princípio, o início da descoberta da vocação humana: amar e sermos amados.

No encontro primeiro do amor tudo é. Tudo é, cada um é, no que é, sem nada deixar de ser, o é, sem ainda saber que é no amor. E, em sendo amor, o homem e a mulher são somente toque de pura gratuidade de amar. Amar é gratuito, não cobra, não exige; o sinônimo de amor é gratuidade. O Tu é sempre livre completamente livre de mim mesmo, e, por isso, impossível mandá-lo/la para fora do convívio, da casa do encontro.

Aquele amor primeiro capaz de poetar e rezar. Ainda rezamos de mãos dadas? Abraçamos juntos os filhos, as filhas. Eles expressão do primeiro amor!

 

Dom Leonardo Steiner

Arcebispo de Manaus


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