Arquidiocese de Manaus

A criança – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 18 e 19.09.2021

“Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma” (João Guimarães Rosa, Corpo de Baile). A história “Campo Geral” e que tem dois irmãozinhos como personagens centrais Miguilim e Dito, é um tanto longa, citamos a quase conclusão de viver que Dito intui.

Em Marcos diante da busca do “ser maior” que os discípulos discutem durante o caminhar, Jesus busca uma criança e a aproxima dos discípulos apresentando-lhes o modo de viver e de ser da vida que Ele está a oferecer. Diz: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo” (Mc 9,37).

Criança, a simplicidade e inocência; a vida no frescor, na limpidez e na pureza de sua origem, de sua fonte. Viver no vigor da simplicidade e da inocência original. Um despertar que se desvia do ser criança, infantil, ingênuo, nem mesmo de viver como se fosse criança, mas, sim ser como crianças. Um viver sem ressentimentos, sem “escondimentos”, sem dominação e usurpação, mas na suavidade e força da criança no seu nascer. Ser como criança: a possibilidade de ser. Tornar-se como criança é virada, conversão, transformação radical: limpo, puro, inocente, ainda sem fala, sem interpretação: somente ser!

Jesus contrapõe o modo de ser criança, à ambição de “ser maior”. A vanglória, a ambição pelo primeiro lugar, ofuscam a limpidez das relações. Ao abraçar a criança e indicá-la como caminho aos discípulos, Jesus mostra que os pequenos e pobres, os simples e os humildes são o nosso futuro, o caminho do céu. É que a humildade, a simplicidade, a liberdade, o ser que tende para a maturidade é a autonomia, a liberdade, a humildade, a jovialidade. O abraço à criança está a indicar que a regência do mundo e da história da humanidade ao modo de Jesus, não está com os poderosos, mas com os pequenos, os humildes, as crianças. Ser-criança está na sua simplicidade. Simples é o que não tem dobras, isto é, o que não está enrolado em si mesmo, mas o que é um, o que é exposto e disposto na coragem, na aragem e na jovialidade de ser: “Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma”.

O desejo de “ser maior”, sufoca, destrói, desvia do caminho do humano, do ser cristão. Ser maior, tem cheiro de dominação, gosto de poder, desvio de ser mais. “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”. Ser o último, ser o servidor, o libertador, o doador da vida, da esperança. O último porque percebe as necessidades, os sofrimentos, os desânimos e se coloca a serviço. O último porque vê a todos, tem a visão do todo, da totalidade. Nada lhe escapa do olhar.

Pertence à política ver o todo e a todos; ser como criança. Política é, essencialmente, serviço ao todo da sociedade. Quando a política e os políticos se enredam pelos caminhos do poder, dos cargos, do proveito próprio ou de grupos, perdem a força e o vigor; já não serve para reger, proporcionar dignidade e justiça para a totalidade da sociedade e da casa comum. Político é servidor do povo!

Seguindo os passos do Evangelho somos, ainda, provocados a volver nosso olhar, nossa atenção para as crianças. O cuidado com as nossas crianças! Quantas crianças com necessidade de comida, roupa, educação, afeto, apoio, guarida. Quantas crianças abusadas sexualmente, quantas desorientadas na convivência, na vida afetiva. Ser presença que as ajude “estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas”.

Arcebispo de Manaus

Dom Leonardo Steiner


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