Arquidiocese de Manaus

Da exclusão – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 11 e 12.09.2021

Ler é próprio do ser humano. Ler é mais que identificar letras e na conjunção das letras ler palavras. Nos é dado inteligir, ler entre “as letras”, “entre as linhas”. Ao dirigir o barco pela primeira na viagem pelo rio Araguaia, o “Seu Manu” me diz: vá pelo outro lado. Lhe perguntei: como o senhor sabe que é melhor por lá. Respondeu: basta ler o rio. Tudo tão simples para quem navegava desde adolescente pelo Araguaia. Ler o rio! Não mais esqueci que o rio se deixa ler e em lendo ele se dá a conhecer. E em lendo se navega, chega ao porto, à casa, em casa.

Na celebração do Grito dos Excluídos, celebrado em Manaus, foi lido: Jesus “levantou-se para fazer a Leitura. Desenrolando o livro, encontrou o lugar onde está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres: enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos, a visão” (Lc 4,17-19). Desenrolar o livro e ler. Na leitura perceber o sentido do existir, a missão que o Espírito concede. O ler que desperta para uma missão! Ler a vida!

“Vida em primeiro lugar”, indicava o caminho do 27.º do Grito dos Excluídos. Como pessoas que vivem em sociedade, no mundo, temos a responsabilidade pela vida pessoal, familiar, comunitária, pela vida da Casa comum. A vida não é uma palavra vazia, que se possa manipular. Vida é quem somos, quem a pessoa do outro é, quem somos como família, como sociedade, como pessoas que recebem vida das criaturas. Vida: os descaminhos, as injustiças, as manipulações, as agressões; é verdade destruição, mas Vida. Vida como dom de Deus. Vida: a ser levada à plena maturidade. A vida de cada pessoa: presença de Deus.

O lema “A vida em primeiro lugar!” recebeu várias dimensões para a leitura: “Participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!” Saúde diante de tantas mortes; comida diante de pessoas sempre mais necessitadas de cestas básicas; moradia diante da precariedade das casas na periferia e pessoas sem casa; trabalho com o crescente número de desempregados, de trabalho informal; renda diante de sempre mais pessoas esperando a nossa ajuda, a nossa esmola. A participação popular como expressão da Política, o cuidado da cidade! Uma obrigação de todo cidadão fazer política, isto é, de participar das proposições e decisões para com o bem comum, as políticas públicas. Deixar tudo para o tempo das eleições e na mão de poucos que acabam descuidando do Comum, do que é de todos, enfraquece e empobrece uma sociedade, uma nação. E poderíamos ter acrescentado outras tão fundamentais e necessárias para a vida de todos.

Vida em primeiro lugar, está a exigir discussões, diálogo, ações que coloquem a economia a serviço de todos, por isso mesmo, gere empregos, oportunidade de vida. Vida em primeiro lugar, está a responsabilizar a todos no perseverar no cuidado da Casa Comum. Estamos destruindo a nossa casa em benefício de poucos. Vida em primeiro lugar, está a despertar para a dignidade e respeito para com os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, os pobres. Grupos fechados e dominadores agridem e desfazem o sentido de Nação.

Lermos o sete de setembro que passou, e percebemos onde estamos, que sociedade queremos, que Estado mantemos e que nação estamos a construir. Ler sem preconceitos e ideologias exacerbadas podem ajudar a perceber que a Vida sempre está em primeiro lugar.

Uma leitura crítica, transparente onde a realidade social, democrática, econômica, ética, apareça na sua verdade, pode despertar esperança para as pessoas quase desesperançadas. Uma pessoa de fé deseja ver a verdade da realidade para navegar, mesmo entre as tormentas, os banzeiros, e chegar ao porto, no encontro com as pessoas. Ler para contribuir e ajudar na construção do Reino da verdade e da graça, da justiça do amor e da paz, nosso porto seguro.

Dom Leonardo Steiner

Arcebispo de Manaus


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