Arquidiocese de Manaus

ORGANIZAR A CASA! – Artigo Dom Leonardo Steiner – Jornal Em Tempo – 14 e 15.08.2021

Casa em harmonia: economia. Uma casa desorganizada: não economia. Casa organizada, espaço para todos, equidade, solidariedade, cuidado para com todos os da casa. Casa desorganizada: muitos deixam de morar pela fome e desabrigo; desalojados da casa comum.

Economia: do grego oikos=casa e nomos=ordem. Casa como pessoas que convivem e que vivem de um ordenamento, de um horizonte. Moradia onde todos estão em casa, visibilizam a casa e o ordenamento. Cada um não vive a partir de si mesmo, para si mesmo, mas dinamizados e harmonizados pelo horizonte do conviver.

Uma economia para poucos, porque perdemos o horizonte do pertencimento como humanidade; a presença do outro é valor quando serve para o lucro. Os países com um bem-estar social digno, perdem a sensibilidade de ser humano e buscam evitar, à força, as levas de migrantes. Muitos perecem nas águas e, outros morrem no deserto.

Falamos de globalização. Globalizamos a economia? Não, a economia está nas mãos de poucos. A casa está desarranjada. Não interessam os famintos, os pobres, os imigrantes, os que vivem do trabalho informal. Economicamente não contam e por isso são excluídos. O interesse é a globalização enquanto lucro em detrimento aos famintos, desalojados, mortos.

Por de trás da globalização da economia existe uma globalização de um modelo único. Como escreve Papa Francisco: “«Abrir-se ao mundo» é uma expressão de que, hoje, se apropriaram a economia e as finanças. Refere-se exclusivamente à abertura aos interesses estrangeiros ou à liberdade dos poderes econômicos para investir sem entraves nem complicações em todos os países. Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema «divide e reinarás»”. (Fratelli Tutti, 12)

Na economia, hoje, ouvimos o dogma de que o mercado resolve. Ele não resolve tudo. É um modo de ver e propor pobre, repetitivo, que propõe as mesmas receitas diante dos desafios que surgem. A redistribuição não resolve a desigualdade e pode ser fonte de novas formas de violência que fragilizam as relações sociais. Estamos necessitados de uma política econômica ativa, visando promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial, para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. (Cf Papa Francisco, Laudato Sì)

No desarranjo da casa sobressai, hoje, a especulação financeira, um lucro fácil e que faz estragos e não gera empregos. “Sem formas internas de solidariedade e de confiança mútua, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. E, hoje, foi precisamente esta confiança que veio a faltar” (Papa Bento XVI, Caritas in veritate). A pandemia evidenciou a fragilidade da economia mundial, indicando que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado e que, além de reabilitar uma política saudável que não esteja sujeita aos ditames das finanças, “devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos” (Papa Bento XVI, Caritas in veritate; Papa Francisco, Discurso aos participantes no Encontro mundial dos Movimentos Populares)

Leonardo Steiner

Arcebispo de Manaus


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *