Arquidiocese de Manaus

Homilia do Arcebispo – Domingo de Ramos _ 28.3.2021

Queridos irmãos, queridas irmãs,

Entramos hoje, com Jesus, na cidade da Paixão e da morte. Chegamos à Semana Santa, adentramos os mistérios da nossa fé: Vida – morte, morte – vida.

Domingo de Ramos Jesus montado no jumentinho entra em Jerusalém aclamado pelos discípulos e pelo povo como o enviado de Deus, o Filho de Davi, o Messias. Montado num jumentinho entra aos gritos de aclamação: Hosana bendito que vem em nome do senhor, bendito o reino do nosso pai Davi!

Jesus sobe para o altar do sacrifício. Vimos Como o povo e os discípulos seguem a Jesus com aclamações, mantos, ramos, júbilo, festa, alegria. Ele é seguido e aclamado como um verdadeiro rei, um reino da paz para todos. Um rei pastor, cuidador, filho de Davi, o ungido prometido, o Messias que reinará sem força, sem poder, sem destruição, sem violência.

A sua morte-autoridade, a sua força-autoridade é o amor misericordioso, o amor do Lava-pés, o serviço gratuito, o amor libertado na cruz. O novo reinado será o da paz, pois Jesus mesmo será a paz, porque ele é o princípio da vida nova, a vida nova a luz a brilhar em meio às trevas. Ele é um novo dia, um novo amanhecer. Um novo amanhecer pois a sua insondável misericórdia e o seu amor sem limites, visibilizados na paixão e morte de Cruz são a nossa salvação redenção, libertação da humanidade e de todo universo. No seu amor crucificado todas as tribos e línguas, povos e nações, toda criação é renovada e grita hoje: “hosanas! Bendito aquele que vem em nome do senhor!”

Ao seguirmos a Jesus que entra na cidade da dor da morte e da vida podemos ver o novo Rei não só na humildade e na paz, mas também para a humildade e para a paz, porque ele é a paz. Por isso vem montado no jumentinho, símbolo do homem que se submete, carregando os fardos de seu senhor. Um rei que pelo seu silêncio irá carregar os fardos, os pecados de seu povo que pela sua paixão e morte de Cruz irá destruir os carros, os arcos, os canhões, os helicópteros, os violentos, os cavalos da soberba, da guerra, uma morte que será o princípio de vida nova sem violências, sem vinganças, sem ódios e sem soberba. É por isso que vem montado no jumentinho, símbolo da humildade e da pequenez. Na leitura da Paixão, acompanhamos, silenciosamente, todo itinerário do sofrer e da morte, e o silêncio da narrativa nos deu a dimensão da entrega, da doação, da redenção, do amor gratuito e livre. Deus que ama sem medida.

O que hoje nos comove, toca na proclamação da Paixão do Senhor, são aquelas palavras do evangelista: Pelas 3 horas da tarde, Jesus gritou com voz forte “Eloí, Eloí! lamá sabactâni” (meu Deus, meu Deus! Porque me abandonaste!). A cruz de todas as Cruzes, sente-se abandonado por tudo e por todos, porque sente-se abandonado pelo pai. Ele agora está só. Perdeu tudo. Quase desesperançado, desalentado, só, suspenso entre o céu e a terra; sem terra e sem céu, foi suspendido de tudo e de todos. Pode haver angústia maior? Pode haver maior dor do que estar só na dor, no sofrimento, sem ver ninguém, sem ter a mão a quem estender? A quem recorrer? De quem esperar? Onde estão os discípulos? Onde se encontram as multidões saciadas pelo pão? Onde estão os cegos agora com olhos? Onde os surdos que ouvem? Onde ficaram os leprosos purificados e reinseridos? Onde o pai? O grito de Jesus quase nos tira o fôlego, quase nos retira o respiro. Ele é pura paixão. As trevas que se abatem sobre o Monte Calvário, indicam a solene examização física e psíquica do filho do homem, mas não examização do amor. O ápice da narração da paixão que ouvimos de Marcos “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” é aquele que grita, suplica, clama, um abandonado, um clamor, no entanto, que é uma Súplica, uma intimidade, uma intimidade com Deus que o abandona. É mais que uma súplica, é uma intimidade com Deus porque diz: meu Deus!

Jesus, o abandonado; pai que abandona, o grito nascido das entranhas das profundezas do coração é um grito de intimidade, de confiança, de pertença. É a revelação da intimidade com o pai. “Meu pai”, palavra que lança para dentro do mistério do amor límpido e transparente, a relação entre o filho e o pai; o filho que busca o pai, não como refúgio, mas como um regaço acolhedor, sabedor que o acolherá. Nada mais restou, somente o pai. E depois do grito expirou, entregou o espírito, tudo isso está no total abandono e fracasso, na visão da fé, no entanto, nos mostra totalmente outra paisagem. Tudo, de repente, se vira pelo avesso. O extremo abandono é na realidade plenitude de um amor. A profunda solidão se converte em unidade total. No momento em que parece estar mais desamparado, está mais do que nunca identificado com o querer Divino transparente ao pai. Nesta fraqueza sem fim, Jesus se acha sem reserva, entregue ao poder do pai, totalmente aberto o ato criador da Ressurreição.

Somos hoje, queridos irmãos, queridas irmãs, tocados no íntimo, mais íntimo de nós mesmos, ao ouvirmos o grito de Jesus e no grito na sua relação amorosa com o Pai, o meu Deus. Não seria para nós expressão do nosso caminho, quando nada mais temos, quando nada mais podemos e quando já quase não somos? E então sim, buscarmos com essa quase violência de Jesus o coração do pai e também nós dizemos: “Meu Deus porque me abandonaste?” Meu, porque eu o experimentei como pai. Meu, porque não sentimos filhos e filhas, não compreendendo, não entendendo, tudo perdendo justamente nesse instante, nesse ápice do nada mais saber e ter, poder dizer do fundo da alma: “meu Deus”. Experimentar do seu amor e da sua misericórdia a consumação na íntima relação entre pai e filho, bem no cerne desta intimidade que é amor e, portanto, entrega, doação, gratuidade. As palavras “meu Deus” que nascem da dilaceração deixa ressoar o grito das crianças indefesas a morrer no mundo hoje, no sofrimento e na fome; as mulheres vendidas e estupradas; os jovens perdidos no meio da oferta consumista e sem destino da nossa sociedade; os desempregados na busca desesperada do pão na mesa; o grito sem som dos irmãos e irmãs que sofrem o martírio porque clamam a Jesus, Jesus crucificado ressuscitado. Mas também há súplicas e preces que não cessam na dor e no sofrimento pelos que morreram por Covid-19; aquele choro e lamento que não quer cessar diante dos entes queridos que passaram pela morte. No “meu Deus” voltados todos para Ele também no vazio, também nós dizemos: porque nos abandonaste? Mas também diremos: “Nós te amamos”.

A cruz torna-se, então, caríssimos irmãos e irmãs, um elo. Revela a unidade, é o ponto do céu da nova criação, do novo céu e da Nova Terra. É ouvir a luz da unidade primordial entre o Divino e o humano. A cruz é a fenda onde tudo se entrecruza percussão que repercute em todas as coisas, mostrando que tudo agora é um no amor, na centralidade da Cruz. Assim a haste vertical nascida da terra sobe até o céu e penetra o íntimo de Deus. A haste horizontal cruzada e sustentada pela vertical percorre toda a terra, em vários horizontes, em toda a humanidade, de toda a história, de todo universo levando a todos e a tudo a jovialidade salvadora de Deus.

No final da narrativa, queridos irmãos e queridas irmãs, encontramos uma declaração surpreendente. Diante do Deus feito nada, diante do Deus humanado que exala o suspiro da humanidade, há uma confissão de quem ali estava. Quando Jesus morre, o centurião romano que não era crente, não era judeu mas pagão, que o tinha visto sofrer na cruz, que tinha ouvido perdoar a todos, que tinha constatado o seu amor sem medida, confessa verdadeiramente: este homem era o filho de Deus. Ele diz exatamente o oposto dos outros. Ele diz que Deus ali está e que este Deus é o verdadeiro Deus, o Deus crucificado.

Entremos, então, queridos irmãos e queridas irmãs, no mistério da dor, na cidade da dor e da cruz. Deixemo-nos tocar pelo amor inaudito e salvador do crucificado. Possamos, ao ver escorrer da Cruz do crucificado o seu sangue e sua água, possamos, também nós, professar verdadeiramente: “Senhor tu és o filho de Deus, o nosso irmão.

Finalmente, o filho de Deus se fez um de nós, como nós e nele agora somos, finalmente, irmãos e irmãs.



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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