Arquidiocese de Manaus

Meditação sobre José do Egito e Jesus, o bom Pastor

Artigo de Pe. João Benedito da Cunha Alves, SDB-BMA

Sabemos da importância e do lugar que ocupa a Palavra de Deus na vida da comunidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo, inclusive da relevância da Palavra na ação pastoral, motivo pelo qual se tem evidenciado a “animação bíblica da pastoral”; neste sentido, muitas comunidades e congregações religiosas realizam a Leitura orante. O presente texto se situa no contexto orante da Palavra; trata-se, especificamente, de um momento importante desse processo, ou seja, da meditação. A intenção dessa partilha é incentivar o leitor a revisitar a Sagrada Escritura em virtude do ministério da palavra, como orienta o Vaticano II, na Dei Verbum2.

Ponto de partida

A presente meditação tem sua fonte nas primeiras páginas da Sagrada Escritura3, em que é narrado o “sonho” de Deus, que se revela como o Criador do ser humano (homem e mulher), e que os cria à sua imagem e semelhança para crescerem em liberdade, responsabilidade e viverem em harmonia no “jardim” do mundo criado.

As fraquezas de Adão, Eva e de seus descendentes não são resultados de um castigo divino, mas são consequências de escolhas equivocadas que desembocam na desobediência. Deus, entretanto, não abandona o ser humano nestes momentos, mas transforma o fracasso em oportunidades de crescimento. Este é o contexto vital da experiência vivenciada por José do Egito e sua família; e que, por conseguinte, foi transformada por Deus em profundas relações fraternas. É nesta perspectiva que propomos a história de José do Egito, como um pré-anúncio da história de Jesus Cristo, que transformou, de forma única e definitiva, o sentido da vida humana no mundo e a relação entre criatura e Criador.

Experiência de fé e vida de José do Egito

A crise vivenciada por Jacob, embora se desenvolva no contexto familiar, simboliza e representa as fragilidades e dificuldades da humanidade em sua tarefa cotidiana de construir relações fraternas.

A predileção de Jacob pelo filho José incomodava seus irmãos4. Essa predileção foi provavelmente o motivo pelo qual os outros irmãos se sentiam “não amados”, mas sim “rejeitados”. Com o passar do tempo, essa preferência do pai pelo irmão mais novo se torna irritante e odiosa, e desencadeia uma série de ações equivocadas que aumentarão a dor e o sofrimento da família. O pai, entretanto, não substituiu sua preferência por José por nenhum de seus irmãos. A tentativa dos irmãos “rejeitados” de reverter a situação a seu favor só agrava mais o conflito familiar. Entretanto, não podemos esquecer que Jacó experimentou um processo interno de liberação; por isso, não obstante a centralidade do papel de José na narrativa, a história é também de Jacó e de seus antigos conflitos com seu tio Labão e seu irmão Esaú. Jacob e sua família seguem um caminho que os conduziu à transformação do coração. José foi escolhido por Deus para mediar esta experiência de fé.

Jacob, em Betel5, teve uma experiência por meio dos sonhos em que Deus manifesta sua mensagem. José teve dois sonhos6, que contou em família, e só aumentou a raiva de seus irmãos. No segundo sonho, seus pais apareceram na cena, por isso Jacob questionou José sobre o desfecho final deste sonho, porém guardou os sonhos do menino na mente7.

Os sonhos de José não foram bem-vistos por seus irmãos, pelo contrário, serviram para arruiná-lo. Seus irmãos zombaram dele; eles o chamaram de “sonhador” e planejaram matá-lo8. O plano de assassinato foi interrompido por Rúben9, dando lugar ao abandono na cisterna e venda aos ismaelitas10. Despiram José da túnica, que era símbolo da predileção do seu pai11, e ensoparam com o sangue de cabrito para enganá-lo por vingança e justificarem seu desaparecimento12.

José, quando estava no Egito, experimentou que Deus estava com ele nesta nova experiência. Seu amo Putifar o colocou à frente de sua casa13. Enquanto trabalhava na casa do seu amo, a esposa de Putifar convidou José para dormir com ela, mas, por respeito e lealdade ao patrão, ele se recusou a satisfazer os desejos sexuais da patroa. Por conta disso, foi caluniado e preso. José já tinha passado por uma primeira experiência de prisão, quando seus irmãos o colocaram em uma cisterna. No decorrer do primeiro acontecimento, sua túnica foi manchada de sangue de cabrito e serviu para justificar seu desaparecimento; nesta segunda situação, suas roupas também serviram como prova de sua transgressão. Em ambos os casos, suas roupas são utilizadas como base de argumentos mentirosos, de modo a enganar os outros e como forma de vingança14.

Mesmo na prisão, José percebeu que Deus estava sempre com ele. Destacou-se dos demais detentos; e, por isso, todos os prisioneiros são confiados a sua responsabilidade15. Quando ele desempenhava essa função, teve uma experiência importante para o desenvolvimento da sua missão: o exercício de sua capacidade e habilidade de interpretar os sonhos foi um dom que José atribuiu a Deus16. O dom de interpretação tornou-se mais evidente quando José interpretou os sonhos de dois dos servos do rei que estavam presos17; por isso, ele foi levado ao Faraó e interpretou os dois sonhos do rei. Após este fato, José assumiu o cargo de vice-rei do Egito18. José não era mais apenas um “sonhador”, como diziam os seus irmãos, mas um intérprete de sonhos.

A fome na região levou os irmãos de José a viajarem para o Egito, pois lá havia fartura. Seus dez irmãos, ao chegarem lá, encontram José e se curvam diante dele19. O sonho de José começou a se realizar. José testou seus irmãos, porém não movido por um sentimento de vingança, mas pela vontade e desejo de que eles o reconhecessem e recuperassem a fraternidade20. Essa prova se estendeu até a segunda volta de seus irmãos no Egito, já com a presença de seu irmão mais novo, Benjamin21.

O gesto de Judas, que se ofereceu como escravo em lugar da liberdade do irmão mais novo, demonstrou que estava ocorrendo uma transformação interna no que concerne à maneira de compreender as relações familiares. O sentimento de “ser irmão” agora falou mais alto e José percebeu uma transformação espiritual nesse gesto; por consequência, a fraternidade foi remontada, e, então, houve espaço para reconhecimento22.

José chorou pela terceira vez23, mas, naquela vez, seu grito ecoa por todo o Egito e chega à casa do Faraó. Depois desse lamento, José se manifestou aos seus irmãos: “Eu sou José. Meu pai ainda está vivo? Eu sou José, seu irmão, a quem você vendeu aos egípcios”24. O auge do reconhecimento foi a interpretação que José fez dos acontecimentos que o conduziram àquele momento. José interpretou seus sonhos e concluiu que tudo o que aconteceu foi de acordo com o plano de Deus, por isso seus irmãos não deveriam se sentir culpados25, pois foi Deus quem o enviou para o Egito em vista da sobrevivência dos irmãos e da preservação da vida de muitos26. Essa certeza permitiu que José não se concentrasse nas experiências passadas que lhe proporcionaram sofrimentos e dores, mas sim na contemplação da totalidade dos acontecimentos vistos à luz da fé. O “dom divino da interpretação” serviu de ponte para o encontro com o Deus criador e protagonista da história humana, que atuou por meio da pessoa de José, que agiu com liberdade e responsabilidade e restabeleceu a vida fraterna segundo o “sonho” de Deus.

A interpretação dos fatos à luz da fé em Deus proporcionou uma nova leitura dos acontecimentos. A experiência de fé em Deus criador situou os conflitos familiares no horizonte amplo da criação, e possibilitou que o “sonho” de Deus continuasse atuando na história a partir da renovação do coração humano. A mensagem central desse “sonho” divino encontra-se na origem da criação. Na sua origem, a humanidade foi criada na gratuidade e no amor. No ato da criação, Deus se entregou como um presente no “sopro” divino, doando aos seres humanos o “dom da participação dinâmica na vida divina”, a fim de que sejam no mundo reflexo da imagem e semelhança de seu Criador. Esse dom precioso está escondido no fundo dos corações humanos. É a luz que ilumina todos os seres humanos que vêm a esse mundo. Por isso, no momento em que emergem as fraquezas, os limites humanos, as feridas causadas pelas ofensas, calúnias e agressões, a humanidade precisa redescobrir o tesouro escondido no seu coração, que lá foi colocado por seu Criador, e permitir que a força do amor divino transforme em luz as trevas. Ao arriscar-se nessa aventura do amor, a humanidade cresce diante de Deus em liberdade e responsabilidade e no cuidado de si, dos outros e da casa comum.

3. José do Egito, prefiguração de Jesus Cristo

José foi enviado por Jacó para ajudar seus irmãos, mas foi rejeitado por eles, e vendido como escravo. Jesus Cristo é o primogênito, enviado por Deus Pai27; nosso irmão28 enfrentou perseguições e rejeições do começo ao fim de sua vida. A fuga para o Egito e a matança dos inocentes29 assim como a parábola dos enólogos expressam bem essa situação30. Este movimento de rejeição ao enviado de Deus é evidente no Prólogo do Evangelho de São João, expressado no simbolismo da não aceitação da luz. Jesus é a luz, é a personificação da sabedoria de Deus; o Filho único, o predileto do Pai, que vem iluminar as trevas humanas com sua luz, mas é rejeitado31.

José combateu a fome do povo do Egito, dos países vizinhos e de suas famílias. Jesus alimentou os famintos32, porém, foi além; pois o alimento que Ele ofereceu é o pão de Deus que vem do céu, e dá vida ao mundo33.

José passou pela experiência de zombaria e prisão. Os adversários de Jesus também o prenderam e zombam dele34.

A túnica de José, um símbolo da predileção de seu pai, foi banhada com sangue de cabrito. A túnica de Jesus que foi sorteada entre os soldados, e estava banhada com seu próprio sangue, o sangue do cordeiro morto por nossos pecados, e que branqueou as vestes dos que deram testemunho do Senhor nas grandes tribulações35.

4. José do Egito e Jesus, bom Pastor

José era um jovem pastor, ele tinha apenas dezessete anos, mas comandou o rebanho de seu pai36. Embora a imagem do pastor estivesse ligada a alguns maus pastores de Israel, de maneira geral, na Sagrada Escritura, é sempre símbolo de cuidado e defesa do rebanho. A vida de José pode ser lida na perspectiva do pastoreiro, que cuida das ovelhas perdidas e se entrega por elas.

Jesus é o bom Pastor que vem ao encontro das ovelhas perdidas37, as protege dos perigos, dos ladrões e mercenários38, e conduz as ovelhas à vida em abundância no jardim de Deus, pois Ele é a porta do rebanho39. No mistério pascal, Jesus Cristo revela e testemunha, no sacrifício da cruz, que de fato é o “bom Pastor” que dá a vida pelas ovelhas até as ultimas consequências40. Ao sair do túmulo41, contemplamos Jesus Ressuscitado como o “Novo José”, que durante sua vida foi obediente ao Pai, e se esvaziou de si e assumiu a condição de escravo até a morte na cruz, e foi exaltado por Deus42.

José, por meio do dom que Deus lhe deu de interpretar os sonhos, transformou sua vida e a de seus irmãos, passando, assim, de sonhador para sinalizador da evolução do ser humano.

Jesus, o bom Pastor, por meio de sinais, revela-se como a luz que faz o ser humano ver a vida com os olhos de Deus e interpretá-la segundo os tesouros que o Criador colocou no seu coração, levando, desse modo, a humanidade à plenitude da vida.

O sinal de Caná da Galileia é o início de todos os sinais. Jesus, transformando a água da purificação em bom vinho43, revela que carrega a sabedoria de Deus44 e cumpre as promessas de abundância de vinho nos dias messiânicos45.

5. A reconstrução única e definitiva da fraternidade humana

Após a morte de Jacob, seus irmãos, em obediência ao pai, pediram perdão a José, que os perdoou dizendo: que ele não era Deus, mas um homem de fé; e que o mal que ele sofreu foi transformado por Deus em bem; portanto, sua vida e a de seus irmãos e de muitos outros foram preservadas46.

José reatou a comunhão com seus irmãos e familiares e ajudou muitas pessoas a preservarem suas vidas. Ele superou a situação de escravidão pessoal e não escravizou seus irmãos e família; porém, sob seu domínio, “muitos outros” foram submetidos ao regime da escravidão47, portanto, não conseguiu levar à plenitude o projeto de fraternidade “sonhado por Deus” para toda a humanidade. Essa etapa da narrativa pode ser interpretada como um reflexo dos limites da humanidade, que, embora se esforce para dar o melhor de si, nem sempre é capaz de ver a totalidade do desígnio de Deus. Mas essa situação-limite, de forma alguma, diminuiu ou invalidou a manifestação de Deus na história de José e da humanidade, mas sim demonstrou o quanto nós “temos de José” em nossas buscas e tentativas de sermos o que realmente Deus “sonhou” para nós como humanidade, isto é, crescemos em liberdade e responsabilidade mútua e cuidamos uns dos outros e do mundo. É neste contexto que a narrativa bíblica de José do Egito é uma prefiguração da pessoa e da história de Jesus Cristo.

Em Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, temos a realização plena da humanidade prefigurada na narrativa da história de José. Jesus é o bom Pastor, que entregou sua vida em seu ministério público ao povo de Deus; e a entregou totalmente no seu mistério pascal. No movimento de descida e subida que ocorre na vida de Jesus Cristo, isto é, sua Encarnação, Paixão, Morte, Ressurreição, Ascensão e Pentecostes, podemos contemplar o “Novo José” que reconcilia a humanidade com Deus; porém, de forma única e definitiva. Tornando-se, assim, o único e definitivo intérprete e realizador do sonho de Deus de vida plena para a humanidade; narrado na Sagrada Escritura.

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1 O presente texto é fruto de um dos módulos do Curso de Especialização em Arte para o culto cristão, que, aproveitando da oportunidade de estudar em Roma, estou concluindo este ano no Pontifício Ateneu Santo Anselmo. Trata-se de uma Meditação sobre José do Egito e Jesus, o Bom Pastor, apresentada como conclusão do módulo 7. Lectio-Meditatio-Imaginatio, do referido curso.

2 “É necessário, por isso, que todos os clérigos e, sobretudo, os sacerdotes de Cristo e outros, que, como os diáconos e os catequistas, se consagram legitimamente ao ministério da palavra, mantenham um contato íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo aturado, a fim de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da palavra de Deus por não a ouvir de dentro», tendo, como têm, a obrigação de comunicar aos fiéis que lhes estão confiados as grandíssimas riquezas da palavra divina, sobretudo, na sagrada Liturgia. Do mesmo modo, o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam «a sublime ciência de Jesus Cristo» (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (…) Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos» (…)”. Dei Verbum, 25.

3 Gn 1,1-3; Gn 2,1-23; Gn 3,1-23; Gn 4,1-25

4 Gn 37.3

5 Gn 28,12-15

6 Gn 37,7-9

7 Gn 37,10-11

8 Gn 37.20

9 Gn 37,21-22

10 Gn37,23-30

11 Gn 37, 23

12 Gn 37, 31-37

13 Gn 39,1-6

14 Gn 39,7-20

15 Gn 39,21-23

16 Gn 40,5-8

17 Gn 40,8-22

18 Gn 41,1-4

19 Gn 42.6

20 Gn 42,7-23

21 Gn 43,1-32

22 Gn 44,18-34

23 Gn 42,24; Gn 43,30; Gn 45,1-2

24 Gn 45, 3-4

25 Gn 45.5

26 Gn 45,5-8

27 Rm 8.29

28 Hb 2, 11-15

29 Mt 18,10-14

30 Mc12,1-12

31 Jo 1.10

32 Mt 14, 13-21; Mc 6, 30-44; Jo 6, 1-14

33 Jo 6, 22-33

34 Mt 27, 27-31

35 Jo 10,1-6

36 Gn 37.2

37 Mt 18,10-14

38 Jo 10,1-6

39 Jo 10,7-10

40 Jo 10, 11

41 Jo 20,11-18

42 Fl 2, 6-11

43 Jo 2,1-12

44 Pr 9,4-5Eclo 24

45 Gn 49,10-11

46 Gn 50, 15-21

47 Gn 47,13-27


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