Arquidiocese de Manaus

A pandemia – Artigo de D. Sergio Castriani – Jornal Em Tempo 23 e 24.01.2021

Eu queria escrever sobre outros assuntos. Mas não posso deixar de compartilhar com os meus leitores o que tem sido estes dias em que faltou oxigênio em Manaus. De grande expressão simbólica, pois faltou o oxigênio no pulmão do mundo, expondo todas as mazelas de nosso povo, a incúria dos governantes e a falta de atenção dos governados. Os balões de oxigênio são um insumo hospitalar que não pode faltar. Existem pessoas responsáveis por isso. De repente, entes queridos, pessoas conhecidas, gente muito próxima de nós viu-se privada de oxigênio. Todos nos envolvemos na busca de uma solução. E apareceram os aproveitadores. Mas a maioria queria ajudar. Até a Venezuela mandou caminhões com o precioso oxigênio. Fica como lição: a falta de responsabilidade com a coisa pública gera a morte. E quanta morte é gerada pela irresponsabilidade de quem é responsável pela coisa pública.

Nestes dias também faleceram duas senhoras que representavam muito para mim. Dona Virgilina, de Tefé; e dona Ivanilde, de Manaus. Duas senhoras que foram exemplo de funcionárias públicas, responsáveis e idealistas, até o fim da vida. Tive a felicidade de me despedir das duas, sem o saber evidentemente. Dei um abraço bem forte na Dona Virgilina, no final da missa de 50 anos de sacerdócio do Pe. Gaspar. Ela fez questão de ir a esta missa da família espiritana. Ela pensou que pela primeira vez nos seus mais de oitenta anos de vida não participou da festa de Santa Teresa em Tefé, este ano. Teresa era da sua família e tudo passava pelo filtro do seu amor e devoção à santa. Dona Ivanilde veio falar comigo sobre as leigas consagradas, era sua paixão. Ela mesma se consagrou depois da sua viuvez, e deu o resto de suas energias a Deus. Junto com Dom Mário Pasqualotto foi a grande articuladora dos movimentos e novas comunidades na Igreja de Manaus. Outra figura que partiu, foi o Pe. Celestino, historiador e memória viva da nossa Igreja na Amazônia.

A solidariedade do povo simples causa admiração e respeito. Mas, parece que o pior que existe na humanidade ou na falta dela, também insiste em aparecer nos espaços de decisão e os que deviam zelar pelos bens sociais não estão nem aí. A Igreja faz muito bem a sua parte. O Arcebispo foi exemplar na tomada de posição. Mas agora é a hora da misericórdia, chegará a hora da justiça, quando os culpados pelo agravamento da situação deverão ser julgados e punidos. As pandemias existem e continuarão a existir. Catástrofes naturais também matam milhares de pessoas todos os anos. Governos e povo devem estar preparados para enfrentar estas situações para manter a situação sob controle. O que vimos desde o início é uma briga entre os que levam a sério as orientações dos cientistas, que devem ser levados a sério, e os negacionistas que infelizmente estão no governo. Depois, os que sempre se aproveitam dos desastres para ganho próprio, de um lado. Do outro os que são solidários. Escolhamos a verdade dos fatos, que certamente nos levará à solidariedade. É ver a solidariedade, que nos mostra humanidade que nos traz esperança.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO EMÉRITO
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 23 e 24.01.2021



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *