Arquidiocese de Manaus

Fratelli Tutti, “uma Igreja sem receios de se encontrar com o diferente, mesmo com o contrário”

Conhecer a realidade possibilita a conversão, sustentada no olhar, na escuta, no diálogo. Nesse caminho de mudança também tem um papel importante a religião, entendida “como expressão da experiência do Mistério, antes que se torna ideologia religiosa”. Fratelli Tutti nos ajuda a aprofundar nessa reflexão, um exercício que Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, realiza nesta entrevista.

Não podemos esquecer que ele é franciscano e conhece a espiritualidade do Poverello de Assis, que tem determinado decisivamente a vida do primeiro Papa jesuíta da história. A pobreza, que gera gratuidade e liberdade, tão presente no Homem de Assis, tem sido elemento fundamental no ministério do Papa Francisco. Promotor da fraternidade, ele insiste em que todos estamos no mesmo barco, o que deve nos levar a entender, em palavras de Dom Leonardo Steiner que “nos pertencemos como humanidade, nos pertencemos porque recebemos todos o mesmo hálito, o mesmo sopro do Espírito”.

Na entrevista, o arcebispo de Manaus destaca a importância da samaritanidade, que “ultrapassa a igualdade e, mesmo, a liberdade”. Na figura do samaritano estamos diante de alguém que “ilumina o conviver a partir das profundezas de nossa humanidade”, tendo como base a misericórdia. Junto com isso, Fratelli Tutti nos leva a refletir sobre a importância do diálogo e da escuta, sem esquecer, em palavra do arcebispo, que “para escutar é necessário ser povo, estar no meio das realidades, escutar os sonhos”.

Diante da situação política mundial, a cada dia mais cheia de incertezas, especialmente no Brasil, onde “quase perdemos o horizonte da política. Denegrimos tanto a política que quase temos a sensação de valer a pena um salvador da pátria, um ditador”. Dom Leonardo Steiner enfatiza que “deixamos que as ideologias tomassem conta da política por descuidarmos de desnudar politicamente as ideologias duras, funestas, sem cuidado pelo bem comum”.

Somos chamados a construir caminhos de futuro, a “proporcionar espaços aos diversos agentes da sociedade para que possam ser construtores da justiça, da verdade e da paz”, segundo o arcebispo. Para isso se faz necessário “cultivar quase artesanalmente as relações que foram, através dos tempos, rompidas”, a sermos “uma Igreja em diálogo, uma Igreja sem receios de se encontrar com o diferente, mesmo com o contrário”. Também na Amazônia, onde Fratelli Tutti e Querida Amazônia, que “estão em profunda sintonia”, nos desafiam para “um cuidado matricial que mantém todos os seres graciosamente na casa comum”.

Confira a entrevista 

Mesmo sabendo que uma encíclica encerra muitos elementos que passam despercebidos numa primeira leitura. Depois desse primeiro olhar, o que o senhor destacaria da nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti?

Um olhar e escuta de como nos encontramos como humanidade: guerra, violência, isolamento, dominação, esquecimento dos pobres, a escravidão ideológica e escravização de pessoas, a incapacidade de buscar soluções comuns diante da pandemia. Um olhar e escuta para despertar, abrir olhos, para as questões fundamentais que possibilitam emergir a fraternidade, a justiça social, a política, a inclusão de todos, a partilha, o perdão, a justiça a dignidade. Uma proposta dialógica que busca e oferece a todos os homens e mulheres um espaço de encontro, por isso de escuta. Eleva a ação política como articulação da escuta e da organização para o bem de todos. Chama a todos para a responsabilidade de ser humano e do cuidado da Casa Comum.

Uma responsabilidade de todas as mulheres e os homens, de todos os Estados e nações, de todas as religiões. Religião como expressão da experiência do Mistério, antes que se torna ideologia religiosa. A Igreja descobrindo-se imersa no hoje da história, chamada a ser presença transformativa e esperançada do Reino de Deus: um reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino de justiça, do amor e da paz. A Igreja como lugar da escuta e do acolhimento das necessidades humanas mais profundas. Um texto, para os nossos dias, com a força da Mater e Magistra de São João XXIII, no seu tempo.

As duas encíclicas do Papa Francisco, Laudato Sì e Fratelli Tutti, ele também escreveu Lumen Fidei junto com o Papa Bento XVI, tem como inspirador a figura de Francisco de Assis. Como franciscano, quais elementos do Poverello de Assis descobre na pessoa do primeiro Papa que escolheu seu nome?

A liberdade de quem percebeu um grande amor, que foi atraído pelo “Amor que não é amado”. Esse modo da minoridade que se manifesta como simplicidade, proximidade, acolhimento, misericórdia. Minoridade que é liberdade, pobreza; Pobreza-liberdade. Uma provocação para superar os espaços dos “meus” para chegar aos “teus”. Laudato Sì e Fratelli Tutti são inspirações nascidas da essência do Evangelho. Nicolau de Cusa dizia que Deus est non Aliud; Deus Não-Outro. Na sua benevolência tão um de nós que é difícil conseguir dizer que seja outro de nós. Deus pequeno e humilde, Não-outro, revelado a Francisco.

Essa liberdade e gratuidade é a liberdade-pobreza tornada perceptível no Homem de Assis. Se lermos com vagar os textos vamos percebendo como somos provocados a uma nova humanidade, ao homem novo, a nova mulher, porque para lá do “eu”; genuinamente livre, porque simples, pobre. Pobre que oferece a liberdade da fraternidade com tudo e com todos. Pobre como o Não-Outro: livre, oferecendo a todos a paternidade matricial de Deus.

Mais uma vez, como já aconteceu com Laudato Sí, o Papa Francisco quer ir além do universo eclesial. Qual a importância que a encíclica pode ter para uma sociedade cada vez mais globalizada?

Estamos sempre mais globalizados. Estamos no estágio avançado da globalização da indiferença. Papa Francisco não permanece na indicação dos males da globalização, indica caminhos para globalização da esperança, do amor, da reconciliação, do perdão, da fraternidade. Partindo sempre da força do Evangelho apresenta as sementes do Verbo presente nas culturas ou, como algumas pessoas tem denominado, valores universais. Perceber as grandezas universais anotadas em textos inspiracionais.

O texto nos provoca a irmos além de nós mesmos, da nossa realidade, da nossa cultura, e, assim, nos abrirmos ao mistério que tudo mantém, sustém, cria e recria. Abre o horizonte de sentido e, por isso, leitura. Tive a percepção de proximidade e responsabilidade. Há uma busca de proximidade entre as pessoas que vivem na distância geográfica, ideológica, política, social. Uma responsabilidade, pois vivemos numa casa, navegamos num barco, na Amazônia o barco abriga a todos. O que aconteceria com a casa, o barco, se começássemos a destruir as paredes, se consumíssemos tudo o que o barco é? Globalizar, como despertar para o que é comum, mas, essencialmente para o que é todos. Nos pertencemos como humanidade, nos pertencemos porque recebemos todos o mesmo hálito, o mesmo sopro do Espírito.

Nesse mundo globalizado, onde as relações, desde o ponto de vista tecnológico, cada vez são mais fáceis, o Papa Francisco enfatiza a realidade de um mundo fechado. Como a encíclica pode ajudar a fazer realidade uma sociedade onde todas as pessoas possam ser inclusas, onde os muros sejam derrubados?

Tem-se a impressão que o tecnológico torna a vida, o conviver mais fácil e rápido. É verdade, e serve de suporte. Mas, para o modo da convivência da técnica, o modo de pensar da técnica, há um caminho de sofrimento e despojamento, quase desvestimento. O pensar técnico da modernidade é o do cálculo, de impor à natureza o modo calculante de extrair da natureza os bens. Esse modo passa devagar a ser o modo da relação entre nós humanos. Valemos o quanto produzimos. Nos tornamos produtores, quando não produto, quase perdemos a gratuidade da artesania. O modo dos muros é a tentativa do asseguramento, da garantia. Vamos nos esquecendo que a segurança vem da graça da fraternidade.

A palavra fraternidade que formada de duas palavras: frater+idade; idade de it, a força, a energia, o vigor; frater = irmão. A força, o vigor que nos deixa ser irmãos, irmãs; a força, a energia que cria e recria o ser fraterno. Nesse sentido a narrativa do Samaritano é de uma força extraordinária. É que a samaritanidade ultrapassa a igualdade e, mesmo, a liberdade. A igualdade é extraordinariamente provocativa, pois se desvia do superior e inferior. A liberdade ainda mais, pois ultrapassa a possibilidade de poder decidir por isso ou por aquilo, pois liberdade é entrar na dinâmica de uma vida.

Talvez, como nos lembra Papa Francisco, a fraternidade tenha permanecido a quem da necessidade de discussão, da reflexão, do exercício. Como nos lembra a parábola, existe no modo do samaritano um cheiro de gratuidade que é mais que liberdade. É nessa grandeza inexplicável que se torna possível um encontro na igualdade e liberdade. Difícil de ser intuído, porque imaginamos a samaritanidade como socorro, como cuidado, como caridade. O caminho indicado por Papa Francisco é o da abertura, sem abertura; é o itinerário das pontes suspensas. Isto é, um movimento sem tréguas, como o de Deus que sempre está a nos oferecer gratuitamente a seu materno-paterno cuidado, gratuitamente.

O Papa Francisco tem falado repetidas vezes da necessidade de uma Igreja samaritana. A encíclica faz uma profunda reflexão sobre a parábola do Bom Samaritano. Poderíamos dizer que o cuidado com os descartados pelo sistema, um número que tem aumentado exponencialmente com a pandemia da COVID-19, é hoje o grande apelo para a Igreja católica?

Quem é o meu próximo? Fazer o bem sem saber a quem! Aquela palavra preciosa de São Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”. É a visibilização do modo de ser de Jesus Crucificado-Ressuscitado. Alguns, inclusive pensam que a samaritanidade não é suficiente para a globalização da esperança e o amor. Talvez, por falta de escuta. Qual o motivo para interromper a caminhada e cuidar de um semi-morto que não conhece? O que move “aquele outro do meu povo” para derramar vinho e óleo nas feridas e recolher em sua montaria e dar guarida de uma estalagem?

O samaritano ilumina o conviver a partir das profundezas de nossa humanidade. Não existe nenhum porquê, nem para que, nenhuma razão. Dizia um místico: é a aragem da gratuidade. Tem-se a percepção do mover-se da misericórdia. No ano da misericórdia fomos despertados para a essência do ser cristã: misericórdia! Quando a Igreja, nós Igreja, aceita a sua samaritanidade, ela cresce na sua identidade, na sua missão, no anúncio. No samaritano vem a lume, o crístico do cristão.

A palavra diálogo é uma das que mais aparecem em Fratelli Tutti, sendo colocado como uma necessidade urgente. Como a encíclica pode ajudar a superar as dificuldades que existem na sociedade, também na Igreja, para assumir o diálogo como uma atitude cotidiana?

Diálogo é escuta. Sem escuta, o outro não pode vir ao meu encontro e não tenho chance de encontrar o outro. Não nos tornamos “nós”. Da escuta nasce o logos, a palavra, o discurso, os gestos, os abraços, a confiança, a esperança, o consolo. Através da fala do outro entramos na comunhão de seu pensar e ser. Estamos carentes de diálogo, carentes de escuta. Escuta é disposição e disponibilidade. Escutar as angústias e as esperanças, as tristeza e alegrias, as mortes e suicídios, permanecendo com vida. Escutar almas! Almas como diz o poeta: quando a alma não é pequena. Papa Francisco tem expresso tantas vezes o modo da Igreja como maternidade, como mãe. Maternidade é essencialmente escuta. Do não saber, ser, é sempre mais maternidade.

Os discípulos e as discípulas de Jesus são a Igreja. Somos chamados a escutar: deixar ressoar as fomes do espírito e as fomes do corpo. Ao olharmos para Jesus, percebemos que ele está em contínuo diálogo com tudo e com todos: o Pai, os pobres, os escribas, os fariseus, os discípulos, as mulheres, as crianças, os cegos os surdos, os leprosos, as viúvas. O que sempre me impressiona é que Jesus cura na completude: teus pecados estão perdoados, vai em paz…. Na finitude, na dor, no sofrimento, encontra o coração sofrido que necessita de cura. É o silêncio, a escuta, que possibilita o para além do percebido e ouvido. Escuta concede palavras, inspira gestos, acolhida. Para escutar é necessário ser povo, estar no meio das realidades, escutar os sonhos. Como é decisivo hoje o diálogo. Nele se manifestam caminhos de fraternidade.

Mais uma vez, o Papa Francisco aborda na nova encíclica o tema da política, fazendo uma análise crítica dos diferentes sistemas políticos e sociais. Diante da realidade que estamos vivendo na política mundial e brasileira, qual seria a política necessária para o Brasil e para o mundo?

A política é fundamental para uma sociedade, para um país. No Brasil quase perdemos o horizonte da política. Denegrimos tanto a política que quase temos a sensação de valer a pena um salvador da pátria, um ditador. Deixamos que as ideologias tomassem conta da política por descuidarmos de desnudar politicamente as ideologias duras, funestas, sem cuidado pelo bem comum. Descuidamos de educar para a política. Política como nos tem recordado Papa Francisco, a forma mais perfeita da caridade. Esse cuidado para com o todo de uma sociedade de um país. A discussão, o debate é sempre a favor do país, dos pobres, dos sem voz. Uma discussão e debate onde ninguém fica excluído. O ultrapassamento de interesses grupais, de ideologia, hoje, infelizmente, de religião, de mercado.

Nesse sentido Papa Francisco insiste que “a política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Embora se deva rejeitar o mau uso do poder, a corrupção, a falta de respeito das leis e a ineficiência, não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise atual”. A importância, a força da política. Política que é política carrega consigo uma generosidade, uma disponibilidade. É exercício da liberdade!

Ao abordar a questão política, Papa Francisco nos desperta para a responsabilidade da Igreja para com a política. Educar para a política, insistir para que os leigos bem formados participem da política. Será o modo de avançarmos em muitas questões que hoje nos afligem: a ética, a economia, as políticas públicas, a saúde, a educação, a cultura, o lazer, a religiosidade. Dimensões tão fundamentais da fraternidade. A política abre espaço à fraternidade, mas ao mesmo tempo a fraternidade dá sentido à política.

Quais são os caminhos de futuro que Fratelli Tutti abre para a Igreja e para a sociedade?

Uma afirmação apresentada no texto nos faz perceber a responsabilidade e a necessária participação de todos: “É necessário pensar a participação social, política e econômica segundo modalidades tais que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum e, por sua vez, se incentive a que estes movimentos, estas experiências de solidariedade que crescem de baixo, do subsolo do planeta, confluam, sejam mais coordenados, se encontrem”.

Proporcionar espaços aos diversos agentes da sociedade para que possam ser construtores da justiça, da verdade e da paz. Uma convocação às nossas sociedades e culturas a se escutarem, descobrirem as suas riquezas e o único em cada, mas no fundo manifestações do mesmo mistério que as une. Somos despertados para cultivar quase artesanalmente as relações que foram, através dos tempos, rompidas. Como cristãos, somos acordados para a responsabilidade da participação na sociedade oferecendo o que temos de melhor do nosso ser cristão: o “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Uma busca sem tréguas e sem limites. Uma Igreja em diálogo, uma Igreja sem receios de se encontrar com o diferente, mesmo com o contrário.

Para nós que estamos na Amazônia, a Igreja, existe um caminho a ser percorrido, pois Fratelli Tutti e Querida Amazônia estão em profunda sintonia. Se conseguirmos sonhar com os sonhos da Querida Amazônia, estaremos abrindo caminhos de fraternidade na Amazônia. Os sonhos, quando lidos como totalidade, abrem o espírito para a convivência harmoniosa-tensa, um cuidado matricial que mantém todos os seres graciosamente na casa comum. A riqueza dos nossos povos e culturas ensinam que fraternidade não obriga, mas acolhe, respeita, ensina, celebra, familiariza. Temos muitos desafios para preservar, cuidar e cultivar a fraternidade na Amazônia, nossa Casa Comum. A fraternidade nos anima e aquece.

 

Por Pe. Luis Miguel Modino

Publicado em http://www.ihu.unisinos.br


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