Arquidiocese de Manaus

Idosos – Artigo D. Sergio Castriani – Jornal Em Tempo 17 e 18/10/2020

Em Tefé existe um grupo de senhoras, quase todas acima dos setenta anos, que dançam e fazem apresentações em todas as festas. Esse grupo já existia há quinze anos atrás, quando a Pastoral da Pessoa Idosa foi acolhida na CNBB como um organismo, tendo como modelo a Pastoral da Criança. Nas dioceses e prelazias que já tinham um trabalho organizado com os idosos, foi mais fácil a implantação. Durante muito tempo, as duas circunscrições do Regional Norte I que tinham a pastoral foram Manaus e Tefé.

A pandemia, com o isolamento social correspondente, tirou de muitos idosos a oportunidade de um contato com o exterior. Este ano a Pastoral vai realizar em Manaus um Simpósio para comemorar os quinze anos de existência. Haviam outras programações, mas a crise causada pelo corona pegou em cheio a pastoral, porque a principal ação dela é a visita domiciliar feita pelos líderes. Nessa visita, os visitadores fazem um questionário sobre os principais sintomas que um bom número de doenças tem e que com um pouco de cuidado o idoso poderia evitar. Ele é perguntado sobre incontinência urinária, quedas, frequência que toma água. Nestas visitas se descobrem muitas coisas. Às vezes a situação do idoso é tão precária, que não há como não intervir buscando ajuda nas pessoas que tem uma função reconhecida pelo Estado no trato com violação dos direitos que a pessoa idosa tem.

Não são todos os idosos que estão em situação difícil, mas é claro que quando há um problema, os idosos são atingidos de cheio. No caso do corona constituem o principal grupo de risco. A possibilidade de vir a óbito é real e muito grande. Os idosos estão com medo de pegarem a doença, eles mesmos e os seus cuidadores. A perspectiva de ficarem abandonados é uma coisa difícil de suportar. Se em tempos normais isto já é apavorante, em tempos de pandemia, imaginem.

A situação econômica também se tornou pesada para aqueles idosos que são verdadeiros arrimos da família. Tudo isto eleva a temperatura emocional dos lares causando sofrimento aos idosos. Algumas pastorais fizeram uma campanha para que as pessoas ligassem para um idoso. O celular tornou-se um instrumento de comunicação que salvou muita gente da fobia de ter sido esquecido. A Pastoral da Pessoa Idosa vai sair da pandemia, como todo mundo, mas com algumas convicções. A primeira delas é que somos todos iguais diante dos grandes problemas da vida. A solidariedade é a virtude mais importante em épocas difíceis. Lá onde existe uma pastoral organizada as respostas vem mais rápido, quando existem problemas. A necessidade de uma pastoral de conjunto ficou clara. A Cáritas poderia coordenar este esforço de trabalharmos juntos. A população brasileira sairá marcada pela mortandade de idosos. São vidas que valiam por simplesmente estarem entre nós com sua sabedoria, e que foram tiradas as vezes sem possibilidade de uma simples despedida. Nós todos fomos atingidos por estas perdas. Um mundo mais triste está por vir. Que falta nos farão os vovôs e as vovós levados pelo vírus. Mas a vida continua e redescobriremos a alegria de viver. Mesmo sem algumas das participantes o grupo das senhoras de Tefé continuará a se apresentar.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO EMÉRITO

JORNAL: EM TEMPO

Data de Publicação: 17 e 18.10.2020

 



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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