Arquidiocese de Manaus

Não esqueçamos – Artigo de D. Sergio Castriani – Jornal Em Tempo – 10.10.2020

Mais uma vez tenho que recordar alguém que foi levado pela epidemia que faz tantas vítimas, que permanecem anônimas. Nestes dias perderam a vida o Frei Salvador e o Doutor Vinícius, o primeiro capuchinho, padre; o segundo um médico urologista. Os dois na idade mais promissora de suas vidas. Esta parece ser uma característica desta segunda onda da pandemia que não dá tréguas. Quando pensamos que a pandemia estava dando sinais de arrefecimento, os hospitais começaram a ficar cheios de novo casos e os números, que não mentem, e não podem ser manipulados, nos mostraram uma realidade diferente.

Para lembrar os que morreram, seus nomes e o que faziam seria bom que o governo fizesse um projeto que fosse um memorial. Eu tenho escrito para não esquecer um amigo ou uma amiga. São todos casos emblemáticos, falta-me tempo e estrutura para mais.

O Frei Salvador terá a sua lembrança cultivada na comunidade capuchinha. O Dr. Vinícius será lembrado por todos os que foram seus pacientes como um verdadeiro médico. Médico por vocação, cresceu num ambiente cristão. Seus pais são membros do movimento de casais na Arquidiocese de Manaus. Ele com certeza adquiriu gosto pela medicina apoiado por este contexto familiar. Era um sonhador e fazia os seus clientes se sentirem bem. Trabalhava muito, e era notório que não tinha tempo pra si mesmo. Era obeso, daqueles obesos simpáticos que riem da própria condição. Soube depois de sua morte que havia feito uma cirurgia cardíaca. Simplesmente ele não devia pegar o coronavírus, porque era do grupo de risco. Perguntei a quem me deu a notícia, onde seria o velório e a resposta foi, quando é COVID 19, não há velório. Espero que algum padre tenha conseguido ao menos chegar perto. Isto é o pior da história. Pessoas morrem todos os dias, mas nos seus ritos fúnebre, nos apropriamos da morte dando-lhe uma feição humana.

Conheci o Dr. Vinícius quando necessitei pela primeira vez dos cuidados de um urologista. Ao chegar na clínica havia um grande número de clientes aguardando, a maioria gente simples. Ao chegar a minha vez ele me tratou tão bem, dando as explicações necessárias que me tranquilizaram. Com ele faria três interventos cirúrgicos. O primeiro para tirar as pedras da bexiga, que mostrou um câncer. Ao explicar-me o que era e a necessidade de uma outra cirurgia, o fez como um pai. Na terceira cirurgia tudo foi resolvido. Tenho que estar atento para ver se não voltam as células problemáticas.

Não sei como ele foi infectado, mas sei que muitos profissionais da saúde morreram por ficarem mais expostos ao vírus. Um médico escolhe viver em constante perigo de se contaminar pelos seus pacientes. E todas as pessoas que têm contato com doentes nos hospitais fazem parte do grupo de risco. É heroica a dedicação de alguns deles.

Era um empreendedor. Montou uma clínica moderna, o que era sinônimo de sacrifícios financeiros, sem dúvida nenhuma. Todos perdemos amigos, familiares e parentes para o coronavírus. Há muita tristeza no ar. Quando pensamos que as coisas já são muito diferentes, a realidade se mostra cruel como nos primeiros dias. Será uma pena se não aprendermos algumas lições.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO EMÉRITO
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 10 E 11.10.2020



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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