Arquidiocese de Manaus

Escândalos – Artigo D. Sergio Castriani – Jornal Em Tempo – 30.8.2020

Uma tarde ensolarada, tive um compromisso numa das comunidades de Tefé. Tudo terminou as três horas da tarde e eu resolvi fazer uma visita surpresa a uma senhora idosa que fazia tempo que não visitava. Quando bati na porta e ela me atendeu senti que havia chegado numa hora errada. Ela estava acompanhando na TV a bênção do Pai Eterno. Sentei-me a acompanhei a oração.

Diante da televisão estavam vários copos de água para serem benzidos no final do programa. Quando chegou a hora da bênção ela me disse: O senhor não acredita, não é, mas aqui tem um copo de água para mim, um para o gato, o outro ia para quem chegasse. Eu disse para a senhora: Não é o meu jeito de acreditar, mas se a senhora acredita eu acredito na senhora. E solenemente tomei o meu copo de água.

Nestes dias eu me lembrei desta história, quando o padre que apresentava o programa, se tornou o epicentro de um escândalo financeiro, que adquiriu conotação sexual, numa espiral demolidora de todas as suas atividades. Apresentado como chefe de quadrilha, tudo que ele fez e significa para as pessoas está colocado em cheque. Talvez um dia eu possa perguntar à senhora o que ela achou de toda a história. Pelas reações que ela teve diante de outros escândalos na Igreja, ela provavelmente disse: coitado, caiu nas tentações do diabo que não gosta dos padres.

A devoção ao Pai Eterno que atrai multidões passou a ser identificada com este padre que certamente perdeu a cabeça julgando a si mesmo como alguém que está acima de qualquer suspeita e confundindo as coisas. Pessoalmente, acredito que ele fez tudo dentro da lei. É claro que existe uma responsabilidade pessoal, mas a imagem da Igreja sai arranhada do episódio, como tantos outros que vieram à tona nos últimos tempos.

Não adianta dizer que o papa Francisco não aprova este tipo de Igreja, mais preocupada em fazer grandes templos e manipular grandes somas de dinheiro. O padre é padre. Preparou-se para exercer o sacerdócio durante longos anos. Como sacerdote tem direito a uma vida material que é suficiente para ele. O povo trata os padres bem e não deixa faltar nada. O que justifica o apossar-se de grandes somas e levar uma vida nababesca? Por que nestes casos a hierarquia sempre chega atrasada, só quando a imprensa dá publicidade aos fatos?

O fato de fazer sucesso, dá uma áurea de santidade que prejudica as avaliações. Mesmo bispos ficam impressionados com um padre que faz sucesso, e no caso, com uma novena. A Igreja lida com isto com muita dificuldade. O dinheiro da Igreja pertence aos pobres. Quando padres e bispos se esquecem que são meros administradores e passam a gerir os bens como se fossem pessoais, surgem os problemas. Acho que a Igreja no Brasil deve um pedido de desculpas ao povo, por permitir e não alertar o povo sobre o peditório em que se transformaram algumas das nossas instituições que não respeitam as comunidades, que necessitam do dízimo para sobreviver.

Tristeza é o que sentimos, por que um sacerdote enganou o povo. Mas sabemos que a Igreja é muito maior que as devoções. Fica a nossa responsabilidade de alertar as pessoas contra os charlatões da fé. Como qualquer aspecto da vida humana, o dinheiro é o mais perigoso para a alma. Estejamos alertas.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO EMÉRITO
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 30.8.2020



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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