Arquidiocese de Manaus

“Eu sou o caminho” – Homilia de Dom Leonardo proferida na Celebração do dia das mães

“Eu sou o caminho” (Jo 14,1-12)

No evangelho proclamado, Jesus nos anima: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”! “Na casa de meu Pai há muitas moradas”!

Existem muitos caminhos, mas sempre caminho do viver; caminho é andar; caminho-rua, caminho-estrada, caminho-vereda, caminho-trilha; caminho-estreito; caminho largo; caminho percorrido, caminho a ser percorrido; caminho que conduz ao rio; caminho que inicia no rio. Rios, riachos: caminho das águas; rio-caminho.

Caminho é “deslocar-se, andar”. Santo Agostinho diz: “Não vês que somos viajantes? E tu me perguntas: que é viajar? Eu respondo com uma palavra: é avançar! Experimenta isto em ti, que nunca te satisfaças com aquilo que és, para que sejas, um dia, aquilo que ainda não és. Avança sempre! Não fiques parado no caminho” (Santo Agostinho). Existe caminho feito de carro, de barco, a pé, carregado ao colo. Existe o caminho da doença, caminho de felicidade, caminho de sonhos, caminho de solidariedade, caminho da dor, caminho de plenificação, caminho da família. Caminhos que nos fazem ser o que ainda não somos. Caminhos que nos fazem avançar, maturar!

Como as águas das fontes se deslocam por riachos e vão encontrando águas de rios maiores e fazem a sua trajetória até chegar ao mar, assim muitos são os modos de caminhar com Jesus para a morada do Pai. Ele fez-se o caminho para o Pai “assumindo a humanidade”. Somos convidados a caminhar por esta humanidade para chegar ao Pai, “porque é preferível tropeçar neste caminho, que marchar fora da reta via” (Sto Agostinho).

Caminho, pois o vemos perto das pessoas, especialmente dos necessitados! Ele se aproxima dos cegos, dos coxos, dos surdos, dos leprosos (cf. Mc 10, 46-52), come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2, 16). Ele deixa a prostituta ungir-lhe os pés (cf. Lc 7, 36-50), salva a pecadora prestes a ser apedrejada, devolve o filho único à viúva, admira a generosidade de uma moedinha sem valor, devolve serenidade aos discípulos na tempestade; abre os olhos, concede palavra, reintegra os leprosos. Passa a noite em oração! Pendido na cruz, oferece ao ladrão arrependido o Reino dos Céus. Deu a vida por nós na cruz (cf. EG, 269). Fez-se caminho para você e para mim. Nele se encontram todos os nossos caminhos.

Tudo como caminho da transformação, libertação: horizonte que se abre e ilumina o nosso existir-caminhante. A verdade dos nossos dias e dos nossos passos se revela e a vida esplende no seu vigor. Jesus nos atrai. Avançar sempre! Não ficar parado no caminho. “Eu sou o caminho a verdade e a vida”! Seguir o caminho que é Jesus e, assim, um dia, seremos o que ainda não somos: santos

A mãe é mãe, na tentativa cotidiana de dar-se como mãe.

A palavra maternidade quer dizer força, vigor, energia de ser mãe. A maternidade não é pronta. É movimento, manifestação, caminho. Assim, a mulher sabe que a maternidade não pertence a ela. Ela pertence à maternidade. Na medida em que é mãe, se faz maternidade. Esquecida de si e toda voltada para os filhos, é tomada pela maternidade que a faz cada vez mais mulher e mãe. A maternidade é caminho. O caminho da maternidade é, passo a passo, no não saber, tentativa de saber; a mãe vai percebendo no choro, na manha, na birra, na teimosia, no silêncio, na palavra, no afago, na repreensão, que a maternidade a conduz. No cuidado materno dos filhos, ela cresce na sua maternidade; nas diferenças e contradições, é sempre mais mãe. Ela percorre o caminho da maternidade, a maternidade se faz caminho. A mãe se faz caminhando. Nem mesmo percebe que caminha, nem mesmo se apercebe na maternidade, pois não distanciada, mas toda inteira, inteiriça em sua maternidade.

Nesse sentido, maternidade é caminho que se faz morada! Quem abriga, cuida, matura, vela, desperta generosidade na mãe. É a maternidade. Maternidade é o abrigo da mãe: todos os cuidados, todos os conflitos, as dúvidas, as incompreensões, os sonhos, as alegrias. As realizações são abrigadas, recolhidas na maternidade. Na realidade, a maternidade torna-se a morada da mulher. Na medida em que a maternidade vai sendo caminho, a mulher é sempre mais mulher. Não duas realidades, mulher-mãe e maternidade. Atraída pela maternidade, torna-se sempre mais mãe-mulher, mais mulher-mãe, mais abrigada: maternidade. Não é verdade que os/as filhos/as se sentem abrigados/as na maternidade? Sentem-se em casa! É que nós, filhos/as, moramos na casa da maternidade. Tão significativo que nossas mães já falecidas continuam a nos abrigar, a nos ter. Não é impressão, não é recordação. Muito do que somos, o somos pela gestação, pela amamentação, pelo amor, pelo calor corpóreo do afeto. Todos trazemos traços, modos, visão, jeito da mãe. Mesmo não sendo mulher.

Como a maternidade é para a mãe morada, assim Jesus torna-se para nós a morada, na medida em que andamos por seu caminho. Trilhando o caminho que é Jesus, somos nele, com Ele e por Ele. Fomos gerados em Cristo e, seguindo os seus passos, somos abrigados, cuidados, por Ele, nossa morada. Não é o que nos ensinam os discípulos de Emaús? Enquanto caminhavam, ali estava Jesus a caminhar com eles e a revelar-lhes o sentido dos passos. Não se tornou Ele a morada, de tal forma que desejam abrigar-se nele: fica conosco, já é tarde? Assim, ao vivermos como Jesus viveu, andarmos com Ele, estamos pedindo que Ele volte e habite entre nós, para que habitemos nele. Com Ele, pois “onde eu estiver, estareis também vós”. No seguimento, Jesus é a nossa morada. Prepara-nos uma morada. Caminho para a morada que é o Pai.

O caminhar com Jesus, em Jesus, é a nossa vida, a nossa verdade. A verdade que nos revela o sentido da vida e do percorrer as sendas. Caminho que desperta para a plenitude da vida. Caminho de libertação, de transformação, de salvação. Libertação, porque doação, gratuidade. Doação, gratuidade, sinalizações de vida em plenitude. A plenitude que nos advém pela morte. Quantas mortes em nossa cotidianidade? Quantas mortes, isto é, quantas libertações de nós mesmos, na generosidade fluente do amor: maternidade, paternidade, pastoreio! Jesus, caminho verdade e vida, nos indica que a nossa vida é para obras maiores: “quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Obras de Deus. Caminho, verdade e vida: com Ele para o Pai e com Ele no Pai.

Hoje, ao celebrarmos a missa de sétimo de Padre Cairo Gama, deixamos ressoar, com gosto e esperança, as palavras de Jesus: “Eu sou o caminho”, “na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar um lugar para vós, (…) voltarei e vos levarei comigo, a fim de que ,onde eu estiver, estejais também vós”.

A morte de padre Cairo nos devolveu olhos para o caminho, desejo para a verdade e fascínio pela vida. Caminho-morada, verdade e vida. Temos o sentimento de que ele tenha viajado cedo demais, para a casa do Pai. Nós o víamos como aquele que ainda não era o que poderia ser. Novo demais para morrer. Ainda permanece em nós o desejo de dizer: Avança sempre! Como avançar, se as águas da vida se deram ao mar? Como avançar mais, se o tempo deixou de ser tempo? Ele, agora, participa da vida que contém todos os tempos, pois agora, como diz o Apóstolo, só o amor não passará.

Agradecemos o sacerdócio do padre Cairo: seu serviço, sua entrega, a busca de viver o Evangelho. Agradecemos a fraqueza, pois ela desperta para Deus que é só misericórdia e devotado aos anawim. A fraqueza e o pecado nos abrem ainda mais ao horizonte da fé: “eu vou para o Pai.” E para o Pai foi, no Pai é. Descanse em paz!

Hoje dia das mães! Mãe, em ti gerados, por ti cuidados, contigo rezados. De ti recebemos a vida, o leite. Sugamos do teu peito a fé. Contigo aprendemos a generosidade, a solidariedade, o amar, a bênção, Deus. Às mães, hoje, a nossa gratidão e prece.

Mãe…
te vejo, não vendo
te sigo, seguindo
rezo a tua reza.
Abraço com teus abraços
amo a vida como amaste
ainda não creio como creste.
Ave Marias sem fim
contas a percorrer
proteção invocada
benção recebida.
Dezesseis: todos cuidados e guardados
aconchegados no coração.
Ainda tenho necessidade da tua fé,
do teu silêncio, da tua força,
da tua prece, da tua coragem e entrega.
Dá-me a benção!
Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar o caminho da maternidade! Sair de nós mesmos, para nos unirmos aos outros, estarmos com os outros, servirmos despretensiosamente os outros. Deus abençoe e fortaleça todas as mães! As nossas que já alcançaram a maternidade de Deus, nos abençoem do céu.

Caminhemos com Jesus caminho, verdade e vida!

Amém!

 


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