Arquidiocese de Manaus

“Tudo está consumado” – Homilia de Dom Leonardo proferida na Celebração da Paixão de Cristo

O Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Ulrich Steiner, proferiu homilia durante a Celebração da Paixão de Cristo realizada na tarde do dia 10 de abril, sexta-feira santa, na Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição.

Confira na íntegra esta profunda reflexão. 

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“Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 18,30)

Uma vida consumada, levada à sua plenitude. Tudo alcançou a sua consumação. Sexta-feira da Paixão nos aproxima, uma vez mais, do mistério da morte que passa pela injustiça da condenação, pelo sofrimento desmedido, pela dor insuportável, pela solidão cercada de pessoas da intimidade. Nessa contradição, celebramos, na Cruz, a libertação, a plenificação do mistério da morte e da vida. Morte, desabrochar da vida em sua plenitude.

Iniciamos nossa celebração, em silêncio e, em silêncio reverente, nos prostramos. O silêncio-lamento desta tarde deseja acolher o mistério de um Deus frágil, cambaleante, sem terra e nem céu.

Imitando Maria, as mulheres de Jerusalém e o apóstolo, acompanhamos Jesus, no caminho até o Gólgota. Permanecendo aos pés da cruz, recebemos a Mãe como nossa mãe e nos tornamos, no discípulo, filhos, filhas.

Hoje é o dia em que colocamos, diante dos nossos olhos, a pobreza de Deus, a fraqueza de Deus, a morte do homem-Deus. Celebramos hoje a morte. Um Deus que, na morte mais dolorosa, faz a terra se unir ao céu.

A liturgia dessa tarde nos mostra a beleza perdida de Deus, como nos mostrava o profeta Isaías: “Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele.” (Is 52,2-5) E, no dizer do profeta, ressoam as palavras do evangelista: tudo está consumado. O centro da celebração de hoje é Jesus crucificado; Ele feito cruz. Ele a cruz!

O Crucificado, a fragilidade do Gólgota, nos fala do corpo-a-corpo, do carne-e-osso, do pele-a-pele, da inserção, da encarnação, do estar plantado, pregado, grudado no lenho. É vivo-morto grudado, pregado, pele-a-pele com o lenho da cruz. Ele é o crucificado! O crucificado deixa entrever, ver a grandeza do Deus encarnado, do Deus corpo-a-corpo na nossa humanidade, do pele-a-pele de Deus na nossa fragilidade.

Esse, assim pregado, grudado, encarnado, pele-a-pele, de corpo e alma da nossa humanidade e fragilidade, o crucificado é o máximo da obediência à Vontade do Pai, pois foi obediente até a morte e morte de Cruz. Numa tal ob-audiência que vem à fala, com limpidez e transparência, o amor do Filho pelo Pai e o amor do Pai pelo Filho. Nada de mais singelo e frágil, de casto que o Crucificado, dando-se livremente ao Pai: entrego o meu espírito! Numa limpidez tamanha, numa pureza tal que nada de mais pobre que o pobre crucificado, na completa exposição e disposição, isto é, da gratuidade na realização da vontade do Pai: o que restou de mim, te entrego: o meu espírito!

E, assim, completamente livre, grudado, inserido, feito um com o lenho, suspenso entre o céu e a terra, é arrancado, é afastado, é separado, é morto da própria vontade: afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas a tua. E foi obediente até a morte e morte de cruz. Até a morte. Desejou ser como o Pai na sua entrega, no seu amor: “tudo está consumado”. Tudo está completo, tudo chegou à plenitude. Tudo era um transbordamento: “e inclinando a cabeça, entregou o seu espírito”.

O silêncio desta tarde deixa emergir a melodia de um amor inaudito: sem palavras, sem gestos; apenas o espírito que se une amoravelmente com o Pai. Como é extraordinário o canto-silêncio, a presença de um Deus que carrega sobre si toda a nossa fraqueza e nos faz participar do mistério da salvação.

Que movimento é esse? Que presença é essa que se recolhe e quase se esconde, na celebração desta tarde? É surpreendente e admirável como na Sexta da Paixão as pessoas tocam, beijam, reverenciam, contemplam a Jesus crucificado. Ao se distanciarem, ainda volvem o olhar, mais uma vez, com o desejo carregá-lo, pelas estradas da vida. Os simples de coração, aos quais é revelado o Reino dos Céus, percebem o movimento da morte que gera vida. “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos! (Mt 11,25)”

Tenho a impressão de que eles participam da dor, do sofrimento, do caminho da cruz, da morte violenta, do esquecimento da sua existência. Os simples, os esquecidos, mas não esquecidos por Deus. Na sexta-feira santa, sempre os vejo tocando, acarinhando, como se rezassem: tu, meu Senhor. Sim, irmãos e irmãs, como nos diz Jesus: aos simples o Amor se revela. E, às vezes, duvidas do saber deles. Mas, como não sabem? Se sabem, é porque o Pai revelou!

Os sábios e entendidos sabem demais, sabem tudo! Sabem da cruz! Sabem da cruz e enfeitam, pintam e a transformam em objeto. Em objeto de piedade. Sabem do crucificado: de sua história, da encenação da paixão, morte e de sua ressurreição. Mas não sabem da Cruz e de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Crucificado. Não sabemos, porque não somos despojados suficientemente como o Crucificado.

Simples, sim os simples! Os simples, os vemos sem sofisticação, sem dobras, sem sombras, sem máscaras, sem armação; os simples, os sem porquê e para quê, os sem rodeios, os sem enfeites, os que veem a realidade a partir do que se mostra na sua verdade nua e crua, sem fazer média, sem rebuscar, sem justificar. O simples, o vemos aberto, simplesmente ali, olhando. Olhando admirado. Todo inteiro. Uno. Tão aberto, tão ali, livre, que está todo disposto e exposto. Está ali, numa cordialidade admirável, numa acolhida despretensiosa. Com o coração partido, admirado, boquiaberto, olhando o Crucificado. Olhando a fragilidade de Deus. Então, o toca, tocado; o acaricia, acariciado; tudo na dor da doação do Crucificado, na aproximação de Deus, na humanidade de Deus, no nada de Deus, na morte de Deus. E, às vezes, não se contém. Com o coração apertado, doído e, ao mesmo tempo, explodindo de alegria, vê Amado e o Amante. O simples a quem Deus se revela.

Ao simples, aos pobres, Deus revela o seu amor incontido. Amor, carne da nossa carne, osso dos nossos ossos. Sem medida, para além de toda medida, o Deus Crucificado e morto. Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado, revelado aos simples. Na sexta-feira, somos provocados à simplicidade e à transparência da fé que não teme a dor, o sofrimento.

O Crucificado seja tudo para nós: o início, o meio, o fim! O princípio de nossa vida: meu Deus e meu tudo! O amor de nossa vida, a vida de nosso amor! O Crucificado seja o nosso júbilo, a nossa glória! Com São Paulo poderíamos repetir: Não pretendo jamais gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nada mais im-porta. Tudo suporta, na glória de ser e viver a Cruz de Jesus.

Esse modo divino de viver do Crucificado, isto é, de amar, isto é, de fazer a vontade do Pai, que aparece em Jesus, é o máximo da possibilidade humana de realização, máximo do sentido da vida, o máximo da inserção, na realidade da nossa humanidade percebida e abraçada. Quantos homens e quantas mulheres viveram meditando o Jesus da Cruz!

Como soa mal, como nos incomoda o Crucificado!

Estranho esse modo. Completamente estranho para nós, acostumados a meditar a harmonia, a querer viver sem dores, na ânsia de superar todo sofrimento humano.

Nesse tempo em que somos atingidos por uma pandemia de um vírus invisível, estamos sendo confrontados com nosso modo de viver desregrado, autossuficiente, ignorante, egoísta, consumista. Confrontados com a dificuldade da presença do outro, mesmo dentro das nossas casas. A dificuldade de aceitamos limites, isolamentos, confrontos. Dificuldade com o estranho modo de não conseguirmos expressar o nosso amor. Somos, hoje, convidados a carregar uma cruz que pertence a todos.

Nessa sexta-feira da Paixão, ao contemplarmos o Crucificado, despertemos para uma vida solidária, cuidadora, cheia de proximidade, amorosa!

O Crucificado, o Doado, nos abra para horizontes mais significativos, mais lúcidos, mais humanos.

Confrontemo-nos! Emocionemo-nos! Comovamo-nos com essa total e livre doação de Deus, na Cruz.

Cruz tem a grandeza da horizontalidade e da verticalidade. Horizontalidade e verticalidade, no entanto, são apenas falas da unidade. Cruz é ponto de encontro entre o céu e a terra. Unidade máxima, onde não mais conseguimos distinguir entre o céu e a terra, pois quando as hastes se movimentam, em movimento circular, já não sabemos onde se encontra o céu e onde se encontra a terra. É por esse núcleo fulcral, a cruz, que tudo é transformado, salvo, redimido, mantido em vida; unificado.

Hoje, sairíamos pelas ruas da nossa cidade, carregando, nos ombros, a Senhora das Dores e o Senhor morto. No encontro das imagens, colocadas na celebração desta tarde, visibilizamos o encontro da Mãe com o filho sem vida.

Ao não sairmos pelas ruas da cidade, podemos ver melhor o que nos ensina nossa Mãe. Ela com Jesus deitado em seu regaço: ele é apenas Crucificado sem vida, e nada mais! E ali, com ele nos braços, a Senhora das Dores, é arrebatada mais uma vez no seu sim, no seu faça-se a tua vontade. Diante da grandeza, da nobreza, da fragilidade, da liberdade, da gratuidade, mais uma vez ela se dispõe e se expõe: Eis aqui a serva do Senhor!

Quantas mães choram os filhos desaparecidos, os filhos tomados pela droga, os filhos mortos, arrastados pelas “desoportunidades” que a nossa sociedade oferece!

No quase silêncio-lamento, nos unimos às mães, especialmente àquelas que não puderam enterrar seus filhos.

Na sexta-feira da paixão, não temos necessidade de procurar as dores, os sofrimentos, os sofredores, os esquecidos. Eles e elas estão, diariamente, diante dos nossos olhos. Infelizmente apenas como números, estatísticas; perderam o rosto.

Não nos provoca mais esse Senhor e já deixou de ser o Nosso Senhor, esse, o da Cruz?

Nele, recebemos nova luz para os sofrimentos e desmandos do mundo de hoje. Nele, despertamos para a misericórdia imensa, incontida e sem medida, de Deus para conosco.

O Crucificado é a superação do deus sem nome, do deus medida, do deus troca. É a superação do deus símbolo, enfeite dos quartos, dos recintos. Ele continua tomando sobre si nossas enfermidades e sofrendo nossas dores. Ferido por causa dos nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes, aceitou o preço da nossa cura (cf. Is 52,2-5).

O que acontece conosco, homens e mulheres do século XXI? O que está acontecendo conosco que o Crucificado já não causa mais espanto, admiração, compaixão. Já não é mais a nossa glória, nossa glorificação?

O que está acontecendo conosco que a pobreza-riqueza, pendida na cruz, não se revela como possibilidade máxima de realização humana?

O que está acontecendo conosco que não somos mais atingidos pela leveza, pela sutileza do amor apaixonado de Deus?

O que está acontecendo conosco que não cantamos mais a liberdade e a gratuidade que nasce do encontro com o Crucificado?

Por que deixou ele de ser Nosso Senhor Jesus Cristo, o Crucificado, o livre?

Por que não nasce mais o canto: “o Amor não é amado”, como cantava Francisco de Assis?

Oração: “Nós vos adoramos, santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as igrejas que estão no mundo inteiro, e vos bendizemos, porque pela vossa santa Cruz remistes o mundo.” Amém! (São Francisco de Assis)

 



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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