Arquidiocese de Manaus

Domingo de Ramos – Artigo de Dom Sergio Castriani – Jornal Em Tempo 4 e 5.4.2020

Neste domingo, em todo o mundo, a Igreja dá início à celebração dos mistérios que estão na raiz de nossa vida de fé. Este ano muitas celebrações não acontecerão por causa do isolamento social que nos impõem a pandemia do corona vírus. Praticamente toda a humanidade está de quarentena e quem não está, está a serviço dos que estão. A Santa Sé orienta para que não haja procissão nas missas transmitidas pela TV. Como fazer uma procissão só com o celebrante e um ministro? Mas a criatividade litúrgica já entrou em campo e uma campanha da CNBB sugere que se coloque um ramo verde ou uma planta nas portas das casas dos católicos. Seria um testemunho de fé da família que mora naquele lugar. Talvez esta será a característica maior das celebrações pascais este ano. Serão familiares.

Ficaremos assistindo as transmissões das cerimônias pelos meios de comunicação, mas a presença da família é mais importante. Por isto, cada celebração tradicional que vamos assistir seria bom fazer algo presencial, uma leitura, uma oração, uma bênção, uma refeição, porque liturgia não é virtual, é real, presencial. Quem sabe depois que a crise passar continuemos a celebrar em família, ao mesmo tempo que celebramos na grande assembleia reunida.

O domingo e ramos é também o domingo da Paixão. Nele proclamamos a paixão de Jesus que continua na paixão do mundo. Não precisamos neste ano de teatro representando a Paixão, porque a realidade está a nossa porta. São tantos os doentes e os mortos com os quais Jesus se identifica, mas também a solidariedade de pessoas e grupos que se multiplicam para achar comida pra quem não tem. Em momentos assim a gente fica mais gente e o melhor de nós aparece. Guardemos lembranças deste tempo para que, quando voltarem os tempos normais, possamos fazer memória da generosidade das pessoas e dos seguidores de Jesus.

Teremos mais tempo para meditar os mistérios celebrados. Poderemos ler os textos bíblicos com calma, conversar sobre eles entre nós e rezarmos a partir deles. Que bom seria se pegássemos gosto pela leitura orante e continuássemos a fazê-la também depois da quarentena.

É a Páscoa que vamos celebrar e Pascoa é vida, é ressurreição. A alegria não nos pode ser tirada. O bom humor deve sempre prevalecer. As situações humanas são, no fundo, engraçadas. Não deixar de sorrir. Se Cristo ressuscitou tudo tem sentido e a morte não nos paralisa. Temos medo dela e isto é normal, mas este medo não impede os gestos solidários, não nos pode embrutecer a ponto de nos tornarmos insensíveis a dor dos outros. Durante a semana santa corremos o risco de termos o auge da crise. Isto só aumenta a nossa fé num Deus que está conosco e que nos conhece mais que nos mesmos, que sabe o início e o fim de todas as coisas e que permanece no comando.

Confiemos na Divina Providência que nos conduz sempre nos caminhos de graça e liberdade, de amor e de doação, cujos mistérios nos serão dados a conhecer um dia. Por enquanto, amemos a vida, lutemos por ela na certeza de que ela vencerá. Vivamos este momento de comunhão na dor e na incerteza, transformando tudo em ressurreição.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO EMÉRITO DE MANAUS

JORNAL: EM TEMPO

Data de Publicação: 4 e 5.4.2020



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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