Arquidiocese de Manaus

VIDA MISSIONÁRIA – DESPEDIDAS – Artigo de Dom Sergio Castriani

O táxi aéreo, um pequeno Cesna, avião monomotor, teve o motor acelerado pelo piloto na cabeceira da pista do aeroporto, cuja pista de pouso e decolagem ficava praticamente dentro da cidade. Quando começou a corrida que faria o aparelho levantar, surgiram dos dois lados da pista duas fileiras de meninos para um último adeus ao padre que passara cinco anos com eles. O piloto acostumado a ver de tudo naquelas paragens não se enervou, e muito calmamente olhando para mim, me perguntou: O senhor está se sentindo mal? Eu respondi: Não, estou indo embora de Feijó. Ele então colocou o avião numa posição tal que eu via o povo nas ruas abanando as mãos.

Ainda não tinha vinte e cinco anos e fora ordenado três meses antes. Chegamos, Pe. Frederico Siegers e eu num quinze de março chuvoso e escuro naquele mesmo aeroporto, depois de duas horas de voo infindáveis. Fomos recebidos com muita desconfiança. O padre que estava na paróquia tinha sido enfermeiro, e prestava relevantes serviços de saúde num lugar de atendimento precário. Aos poucos o ambiente foi mudando. Eu descobri logo que alguns conhecimentos práticos em medicina eram muito valiosos por ali. Fui logo contatado pra dar aulas de português na escola local. Algumas cartas que escrevi na ocasião, mostram o meu desejo de evangelizar.

Muito embora a Igreja do Alto Juruá continuasse a ser uma Igreja de desobrigas, os tempos eram outros e acredito que minha presença nos seringais e nas aldeias indígenas colaborou com a história do Acre, um Estado muito especial dentro da Federação. Aprendi a sua história de lutas para permanecer brasileiro. Infelizmente também foi o palco de massacres até bem pouco tempo. Ainda conheci Pedro Biló, de quem se dizia que tinha participado em várias correrias, a maneira perversa que os invasores tinham para limpar os seringais de índios indesejados.

Quando chegou a hora de ir embora percebi o quanto estava envolvido afetivamente com as pessoas do lugar. Fiquei numa espécie de limbo por um tempo. Mas as novas funções imediatamente assumidas quando cheguei em São Paulo me deram ânimo outra vez e percebi que trouxera os acreanos no meu coração e pude ajudar tantos que vinham a São Paulo a procura de saúde, que às vezes minha casa parecia uma casa de passagem de acreanos, carinhosamente chamados de o pessoal da terrinha.

A mudança de São Paulo para Roma não teve esta dramaticidade toda. Só o povo da rua quis celebrar comigo uma missa de despedida. Guardo o cálice até hoje como uma relíquia do compromisso com os últimos da sociedade. Quando fui nomeado bispo coadjutor de Tefé, pensei que ia ficar por lá o resto dos meus anos. Investi muito na vida pastoral, nas amizades, nas realidades que permanecem. Tudo foi feito numa perspectiva de permanência minha à frente da Prelazia. Mas fui surpreendido com a transferência para Manaus. Foi difícil sair de Tefé e acho que depois de sete anos ainda não saí. Manaus representa na minha vida a coroa que Deus me dará no nosso encontro definitivo. Encontrei aqui um povo maravilhoso, composto de pessoas de um nível humano invejável. A capacidade de solidarizar-se com os que sofrem, seja quem for, a religiosidade que não perde nunca a esperança. Desta vez não haverá despedidas.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ADMINISTRADOR APOSTÓLICO DA MANAUS



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



8 comments on “VIDA MISSIONÁRIA – DESPEDIDAS – Artigo de Dom Sergio Castriani”

  • Jackson disse:

    A despedida não será como antes, mas sabemos q haverá… É bom tê-lo conosco nos inspirando, nos propondo novos desafios, sua presença firme ao lado dos últimos…

  • WILDSON DIAS disse:

    Lindas palavras estamos com o senhor Dom Sergio que Deus o abencoe e lhe de a cura que precisa.

  • Rocicleide Freire da Silva Silva disse:

    Dom Sérgio um servo de Deus. Que bom que ele não será transferido e sim continuará conosco como Administrador Apostólico de Manaus. Vamos sempre ter sua presença no meio de nós com sua sabedoria e sua perseverança. Que Deus continue lhe abençoando abundantemente com saúde e vida longa. Um abraço fraterno. Paz e Bem!

  • Rhoozewelth Amorim Chaves disse:

    ótimo, Dom Sérgio, o povo de Tefé lhe ama muito, assim como o povo de Manaus e por onde andou, acredito que o carisma e bom ensinamentos que o sr. deixa por onde passas, eu me lembro quando estava em Tefé que trabalhava com mensagens ao vivo e tinha o maior prazer de ir em frente a procissão de Santa Tereza e todas as procissões que tinha em Tefé e ainda levava o microfone que era para o Sr. falar em frente ao presidio e hospitais, tenho saudades desse tempo. Agora estou servindo na Igreja de São Bento na cidade Nova e sendo um dos dirigentes do Terço dos Homens, Vamos sentir saudades imensas.! Abraços.

  • MARINALVA MARTINS disse:

    Sem palavras, Dom Sérgio, emocionante texto. Lembro-me quando foi ordenado a Bispo a cerimônia e a despedida em Regente Feijó, a comunidade triste pela despesa, mais imensamente orgulhosos, pois o senhor iria formar um novo rebanho em Tefé, parabéns Dom Sérgio, e que Deus te acompanhe em sua caminhada de evangelização, um abraço fique com Deus…

  • José Áureo castro disse:

    Excelente memória. D. Sérgio que Deus em sua infinita bondade lhe conceda muitos anos de vida entre nós. Tive o previlegio de conhecer quando chegou em Feijó um. Jovem padre.muito novo numa cidade pequena e sem atrativos para alguém que acabara de vir de uma cidade do Sul. Ali desenvolveu um belo trabalho junto aos jovens estudantes.minha mãe uma ativa operária do apostolado da oração. Fiquei vislumbrado com a dedicação que também dedicava aos jovens e aos mais experientes.(IDOSOS)aí incluo minha mãe (em memoria).esse padre que mais tarde se tornaria arcebispo de Manaus. D.Sergio que tenha sua saúde restabelecida o possa ainda servir por muitos anos aqueles mais necessitam .

  • Isaac Matos de Oliveira disse:

    Acreditou mais uma vez nos menos favorecidos e rescrevel sua história em abrir as portas da Pastoral da Terra.Em 2014…Sou grato por sua luta incansável,Deus continuará sempre a seu lado.Ministro da palavra na Área missionária Família de Nazare.Isaac Matos de Oliveira.

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