Arquidiocese de Manaus
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VERGONHA – Artigo do arcebispo publicado no jornal Em Tempo

Vergonha, foi o sentimento que me assaltou ao ver na internet o vídeo em que um padre, depois de ter provocado um acidente, que só não foi mais grave por pura sorte, em visível estado de embriaguez se dirige às pessoas com palavras de baixo calão, tentando justificar o injustificável. O vídeo viralizou e foi visto por milhares de pessoas naquela tarde de domingo em que a Igreja celebrava a terceira jornada dos pobres. Lembrei-me das pessoas que confiam nos padres, eu sendo uma delas. Mais ainda, as pessoas que gostam dos padres e sabem que podem contar com eles. Não me importo com o que pensam aqueles que por uma razão ou outra não acreditam nem na boa vontade deles, julgando-os todos pedófilos e egoístas.  Pensei nas senhoras que frequentam nossas comunidades e que defendem os seus padres. Senti que eu devia um pedido de desculpas.

Eu me sinto responsável pelo que aconteceu. Não fui eu que o ordenei, mas eu lhe dei o uso de ordens e a provisão de pároco. As pessoas que nas redes sociais perguntavam onde estava o Arcebispo naquela hora tem razão de fazê-lo. Eu estive na manhã daquele sábado na Assembleia da Pastoral da Pessoa Idosa, a tarde celebrei na Comunidade Santa Clara, domingo de manhã celebrei na Catedral a missa de aniversário da Rio Mar e fui à Manaquiri celebrar o primeiro ano de sacerdócio do pároco daquele lugar. Confesso que é difícil reagir nestas situações. O padre em questão é uma pessoa e pessoas não podem ser reduzidas aos seus pecados. Por outro lado, ele é uma pessoa pública, que celebra os sacramentos, que fala em nome da igreja. Tem obrigações para com àqueles que confiam nele.  Ninguém é obrigado a ser padre, e a Igreja tem todo o direito de exigir um comportamento exemplar de seus ministros.

O mínimo que se espera é a reparação do erro ou das consequências do erro. Um pedido de desculpas sincero, ficar sem dirigir um bom tempo, fazer um tratamento clínico, porque alcoolismo é doença. Todos sabemos o que é ter um alcoólatra na família. E se não sabemos poderemos um dia saber. Peço perdão por não ser mais duro com os padres. Deveria tratá-los como juiz mas não consigo. Acredito na recuperação das pessoas e tenho visto a graça operar maravilhas. Sei que há situações que são criminosas. Não pedi e não pediria à polícia para passar a mão por cima. Mas num mundo em que pessoas são executadas cada dia, em que mulheres são violentadas, crianças abusadas e o silêncio impera soberano, é bom não fazer barulho só quando um padre sai dos trilhos. Só gostaria que soubessem que de forma alguma a Igreja de Manaus aprova este tipo de comportamento. Pecado é pecado, crime é crime. Os padres de Manaus trabalham muito e bem. Não levam vida de ostentação, são homens que dão a vida pelo povo. São jovens e anciãos. Poderiam estar sendo padres em outros lugares, mas estão aqui. Continuo acreditando neles, pois foram escolhidos por Jesus e eu os recebi como dom. Seria muito bom ter uma Igreja perfeita, mas não seria humana. Prometo tolerância zero nos casos criminosos e a não interferência e colaboração no trabalho policial. Não gostaria de estar na pele do padre em questão. É inevitável que venham escândalos e ai daqueles que os provocam. Já se condenam por si mesmos. Não é preciso atirar mais pedras. Algumas poderiam cair aonde não queremos.

 

DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS


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