Arquidiocese de Manaus
Arquidiocese de Manaus

Conversão integral e vivência sinodal são destaques ao final do Sínodo para a Amazônia

Após três semanas de intenso trabalho, com exposições (intervenções), diálogo, escuta, votação, regados a muita fraternidade e comunhão, encerrou no dia 27 de outubro a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, realizada em Roma, com uma missa presidida pelo Papa Francisco, na Basílica de São Pedro.

Ao todo foram 250 participantes dentre cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas, leigos e leigas, sendo a maioria representantes da Igreja na Pan-Amazônia. Este importante evento trouxe ao centro das discussões a ação da Igreja na Amazônia, e todo o trabalho foi registrado em um documento conclusivo, divulgado no dia 26 de outubro, com cinco capítulos, nos quais destaca a necessidade de quatro conversões essenciais que conduzirão aos novos caminhos para a Igreja na Amazônia: Pastoral, Cultural, Ecológica e Sinodal, conforme nos explica Dom José Albuquerque, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus.

“No texto está explicitado todo o processo sinodal, porque tudo começa com a escuta das comunidades, das lideranças, de todos os clamores e a partir daí o Papa nos faz uma proposta de conversão. São quatro grandes temas (cultural, ecológica, sinodal e pastoral), sempre na perspectiva de que a igreja precisa estar atenta e precisa buscar novos caminhos. A gente não pode ficar indiferente à realidade na qual a igreja é chamada a ser uma presença […] O sínodo vai continuar porque agora o trabalho deverá ser compartilhado pois formou-se uma comissão pós-sinodal, com representantes de todos os países da Pan-Amazônia, sendo quatro do Brasil”, destacou Dom José Albuquerque que participou de todo o sínodo.

O bispo também nos explica o aprendizado obtido durante os dias em que 250 participantes vivenciaram o diálogo e a escuta que leva a um caminhar sinodal, postura esta que deve ser vivida na comunhão fraterna e unidade com o Papa no período pós-sinodal.

“A gente aprendeu o método sinodal, onde a gente escuta e caminha junto, e é a forma para a gente enfrentar os desafios que a realidade nos impõe. Isso tem que acontecer na igreja na Pan-Amazônia, mas também a nível de cada país, cada região e diocese, e isso é um trabalho não só dos bispos, mas também de todos aqueles que participaram do processo. A gente não pode esquecer que é um trabalho feito a muitas mãos, muitas mentes. Há muita gente envolvida. Para chegar até aqui, no Sínodo, foram envolvidas quase 90 mil pessoas. Agora, voltando para as nossas realidades, cada um, com muita alegria, e muita esperança. Vamos apresentar aquilo que o documento nos trouxe, mas precisamos ainda ouvir o que o Papa Francisco vai nos propor, pois até o final deste ano ele fará o possível para nos dar os encaminhamentos, e na comunhão fraterna e unidade com o Papa, cada um em seu lugar, dará continuidade ao processo que o sínodo nos convocou. O documento conclusivo do Sínodo é importante, mas devemos aguardar a exortação pós-sinodal que o Papa vai escrever, onde o Papa decidir o que deve ser assumido ou não”, explicou Dom José.

Dom Tadeu Canavarros, também bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, nos explica como se deu a contribuição dos participantes através do estudo, das proposições, dos relatórios dos círculos menores, além das experiências que ensinam o exercício da sinodalidade dentro do agir da Igreja.

“Nós podemos contribuir através do relatório resultante dos círculos menores, onde percebemos o caminho sinodal para a missão. O caminho sinodal para a Amazônia nos mostrou que o processo abriu a perspectiva de uma eclesiologia diferente, mais batismal e colegial, diferente da Igreja Clerical. A Igreja com o rosto amazônico acentua a corresponsabilidade e a participação de todo o povo de Deus na vida e na missão da igreja. É urgente a criação de novos espaços de escuta, discernimento e participação no exercício da sinodalidade e no agir da igreja […] Diante disso nos foi apresentado um grande texto e foi nosso trabalho ler e estudar este texto para fazer a votação e aprovação. E continuamos nesta dimensão de buscarmos juntos e cada vez mais entender o tema da Ecologia Integral, isto é, inseri-lo de fato nas diretrizes das conferências episcopais, nos planos pastorais das dioceses e prelazias, nos programas paroquias, incluir na teologia moral o respeito pela casa comum e os pecados ecológicos, desenvolver um grande movimento de educação e conscientização ecológica”, destacou Dom Tadeu Canavarros.

Conclusões do Papa

Ao final dos trabalhos, no dia 26 de outubro, o Papa Francisco tomou a palavra e falou que até o fim do ano deve publicar uma exortação pós-sinodal que, embora não seja obrigatória, nas é bom ter uma palavra do Papa sobre o que se viveu no Sínodo.  O Papa manifestou sua admiração pelo Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, um dos pioneiros na conscientização do problema ecológico e da exploração compulsiva, problemática vivida na Amazônia. Também destacou que o anúncio do Evangelho é urgente, e que deve ser entendido, assimilado e compreendido pelas diversas culturas.

O Papa assumiu o compromisso de reforçar a comissão para o estudo do diaconato permanente, a “reforma” no que se refere à formação sacerdotal, para o zelo apostólico e para a redistribuição do clero, inclusive entre continentes, agradecendo aos verdadeiros sacerdotes “fidei donum”, e também valorizou o papel da mulher na igreja.

Também mencionou a Rede Eclesial Pan-amazônica (Repam) como modelo a seguir para uma “semi-conferência episcopal” ou um “Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) amazônico” e sugeriu a criação de uma seção amazônica no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, na Cúria Romana.

Celebração de encerramento

Foi bom – e muito vos agradeço, queridos padres e irmãos sinodais – termos dialogado, nestas semanas, com o coração, com sinceridade e franqueza, colocando fadigas e esperanças diante de Deus e dos irmãos. (Papa Francisco)

Na manhã do dia 27 houve a missa de encerramento, presidida pelo Papa Francisco, tendo ao seu lado os diáconos Francisco Lima e Francisco Pontes, ambos atuantes na Arquidioceses de Manaus. Nesta celebração, durante a homilia, o santo padre afirmou que o sentimento de superioridade resulta em desprezo e opressão contra o próximo, erros do passado que se repete até os dias de hoje.

“Quanta superioridade presumida, que se transforma em opressão e exploração, mesmo hoje! Vimo-lo no Sínodo, quando falávamos da exploração da criação, da população, dos habitantes da Amazônia, da exploração das pessoas, do tráfico das pessoas! Os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimo-lo no rosto dilaniado da Amazônia. A religião do eu continua, hipócrita com os seus ritos e as suas orações: muitos dos seus praticantes são católicos, confessam-se católicos, mas esqueceram-se de ser cristãos e humanos, esqueceram-se do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo”, afirmou o Papa.

Ao final, o Papa ainda destacou a importância de, através dos presentes, poder ouvir a voz do povo da Amazônia e refletir sobre suas vidas, muitas vezes ameaçadas por ações predatórias, mas que seu clamor chega aos céus e Deus ouvirá sua súplica. Disse ainda que é necessário pedir a graça de saber escutar o clamor dos pobres, pois seu clamor é também a oração da igreja, a esperança da igreja.

“Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos nos testemunharam que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser guardada, confiando em Deus. Ele é Pai e ‘ouvirá a oração do oprimido’. E quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez vilipendiadas ou silenciadas porque incômodas. Rezemos pedindo a graça de saber escutar o clamor dos pobres: é o clamor de esperança da Igreja. O clamor dos pobres é o clamor de esperança da Igreja. Assumindo nós o seu clamor, também a nossa oração – temos a certeza – atravessará as nuvens”, concluiu o Papa Francisco.



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *