Arquidiocese de Manaus
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O terço do papa – Artigo publicado em 8/9/2019

Foi no final do Encontro de Belém que reuniu os bispos que vão ao Sínodo da Amazônia, que recebi um presente. Estava terminando de almoçar quando se aproximou de mim o Pe. Michael Czerny, jesuíta, subsecretário da seção de migrantes e refugiados do dicastério romano que se ocupa do desenvolvimento integral. Um dos relatores do Sínodo, ele veio participar do nosso encontro. Chegou muito educado junto à mesa onde eu estava e me disse que tinha um presente do Papa para mim. Era um rosário, destes que o papa oferece a todos os peregrinos que o visitam. Junto dele um santinho do papa Francisco. Me disse que o papa pedia que eu rezasse durante o Sínodo. Sinceramente, não esperava que a minha ausência do Sínodo por questões de saúde já tivesse chegado aos ouvidos do Papa. Alguns dias depois, este padre foi surpreendentemente nomeado cardeal entre os que serão criados no dia 5 de outubro em Roma, nas vésperas do Sínodo. Compreendi melhor como funciona a Igreja, e como deve ser difícil para quem olha de fora entendê-la.

Os bispos são homens que rezam juntos quando estão nestes encontro. Na vida diária nem sempre é fácil rezar todas as horas previstas no breviário. E acima de tudo pode-se cantar a liturgia. Difícil imaginar um grupo destes tramando ações contra o governo ou a favor dele. O olhar de quem reza com humildade e buscando a vontade de Deus não pode deixar de ver o sofrimento humano e suas causas. Ao cumprir a sua missão de evangelização os pastores da Igreja e todo aquele que é pastor, porque tem responsabilidades, deparam-se com um quadro de sofrimento humano que desafia os homens e as mulheres de boa vontade. Não há nada de politicagem aí. O que há é a verdadeira política, que é a arte de exercer o poder em prol dos outros, em primeiro lugar dos indefesos.

Os bispos têm poder e sabem disto, e não tem medo de exercê-lo. Um poder que é em primeiro lugar o poder da palavra. Quando a palavra dita é inspirada nas sagradas escrituras e foi vivida antes de ser anunciada é uma Palavra de poder que incomoda. A outra fonte de poder é o Amor. Gestos desinteressados que não esperam nada em troca, são perigosos para quem mente, corrompe, rouba. Há gestos proféticos que são capazes de abrir os olhos aos cegos e os ouvidos dos surdos. Homens que dão a vida pelo povo sem buscar vantagens para si tem autoridade moral. Sem argumentação, se passa para a desmoralização, e a Igreja paga um preço alto quando se trata de atacá-la moralmente. Na espiritualidade se fala de autocomiseração, que é ter dó de si mesmo. Seria ruim para a Igreja uma atitude assim. A alegria é parte da experiência de ser Igreja.

Rezar o terço é a única coisa que as vezes nos resta fazer. Para rezar o terço bastam os dedos. Não é preciso ter livros, incenso, ornamentação ambiental, postura diferente. Qualquer pessoa pode rezar o terço. Aprendi naquele dia que a força que move o mundo está ao alcance de todos, e ninguém fica fora, se não quiser. Participarei do Sínodo rezando o terço todos os dias na intenção desta Amazônia tão rica e tão exuberante que atraiu e atrairá sempre a cobiça. Que ela seja preservada do mal!

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 8.9.2019



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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