Arquidiocese de Manaus
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O grito – Artigo do Arcebispo – Jornal Em Tempo – 1/9/2019

Esta semana, que é a semana da pátria, traz também o grito dos excluídos. Na sua vigésima quinta edição, o grito já faz parte do calendário de eventos da sociedade civil. Seria muito bom se não fosse mais necessário fazer uma ação como essa. Isto seria possível caso o fenômeno da exclusão tivesse terminado ou diminuído a ponto de se tornar contornável. Em qualquer sociedade haverá indivíduos que serão excluídos ou que se colocarão com toda a liberdade fora da maioria. Mas no Brasil o fenômeno da exclusão é sistêmico. Grupos inteiros de pessoas são excluídas da saúde, educação, moradia digna, segurança como fruto de um sistema excludente.

Há sempre quem consegue furar a fila, em geral via educação formal. Mas, infelizmente estes são exceção e confirmam o fenômeno. Por isto o lema deste ano é significativo: Este Sistema não vale. Ainda revoltados com as quebras de barreiras em Mariana e Brumadinho, os organizadores do grito evidenciam que os crimes ecológicos estão ligados com a injustiça social. É no conceito de ecologia integral introduzido pelo Papa Francisco que se exprime bem a realidade de um sistema perverso que destrói a natureza e põem em risco a vida de seres humanos que não só estão excluídos dos bens da terra, mas estão ameaçados de morte.

Em Manaus a cada noite morrem jovens vítimas do tráfico. Excluídos da vida em segurança viram estatística fria e perversa. Nas ocupações vive uma grande parte da população que nunca terá acesso às benfeitorias que a urbanização traz, excluídos que estão de qualquer possibilidade de melhorias nas condições que vivem. Na saúde é que a situação mostra-se mais perversa. Enquanto aumentam as especialidades, doenças antes erradicadas voltam a aparecer como é o caso do sarampo. Existe uma cidade invisível dos que não contam. Nossa cidade é extremamente solidária e caridosa, mas se trata de justiça social. O sistema é injusto.

O que fazemos como Igreja para combater o fenômeno da exclusão. Concretamente, a ação evangelizadora parte das comunidades e visa a formação de novas comunidades. É na comunidade que o indivíduo se torna pessoa e cidadão. A vida comunitária prepara e forma gente que quer crescer e desenvolver seus talentos e que junto com os irmãos pode trilhar caminhos de superação. Na comunidade se vive uma alternativa ao sistema que mata. Sonhamos com um mundo onde toda criança ao nascer seja querida, esperada e encontre um lar seguro onde possa se desenvolver com saúde garantida e educação de qualidade.

O grito dos excluídos não é um grito de desespero, mas de alegria pelo dom da vida. Quer, no entanto, chegar àqueles que impedem as pessoas de viver com seus planos econômicos e suas empresas que trazem a morte da natureza e da humanidade. O grito é também uma oração a Deus que escuta o clamor de seu povo. Já tivemos prova de que superar a exclusão é possível e começa entre os pequenos que se juntam para viver seu sonho de um mundo fraterno e acolhedor. Não precisamos esperar a grande revolução. Podemos ser pessoas que incluem os outros na própria vida, fazendo da nossa vida e das nossas atitudes parábolas de um novo tempo que com certeza virá.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 1º.9.2019


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