Arquidiocese de Manaus
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O Profeta vê com os olhos da compaixão

PE. GERALDO BENDAHAM

Profeta é alguém que intui, tem o olhar e o mesmo jeito de Deus. Vive a vida com originalidade, sabendo o objetivo e as razões da vida criada pelo Criador. Deixa-se ser possuído por Deus (cf Jer 1,4-8), sem deixar a sua contingência humana implícita pela natureza de lado. O Profeta não é o santo que vive longe do mundo, mas o Santo que vive por dentro do mundo.
Como estamos vivendo em tempos de crise de fé no Deus verdadeiro, tornar-se mais difícil encontrar profetas imbuídos com a mesma compaixão e sentimento de Jesus. Hoje está mais visível encontrar pessoas propagandistas da Palavra de Deus, oferecendo milagres, pro- moções e ofertas. Inclusive ganhando muito dinheiro com pregações falsas. Que Deus é este? Um deus segundo a sua vontade!
O Profeta é aquele que tem compaixão pelos pobres, capacidade de tocá-los como fez Jesus. Como fez São Francisco com os pobres de seu tempo.
Observe por exemplo que a cada dia aumenta o número de pessoas que moram nas ruas da cidade de Manaus. Antes era visível somente no centro da cidade, agora se pode notar em todos os bairros da cidade. Dormem nas calçadas das feiras cobertas,bancos das praças,em frente a hospitais e prédios públicos. Muitos para suportar o frio da noite tomam um gole de cachaça. Outros se tornam dependente químicos e se iludem com a droga para fugir da realidade dura de cada dia. A maioria já teve família, mas por questões subjetivas, preferem as ruas. Em geral são pobres desesperançados, são cidadãos e cidadãs que perderam as forças de lutar por uma vida melhor, sobrevivem apenas com migalhas de comidas que encontram nas ruas. Estas pessoas são vistas apenas quando incomodam com seu pedido de pão ou dinheiro
ou são vistas com o olhar da compaixão?
No capítulo 25 do Evangelho de Mateus, Jesus afirma que tudo que fizerem a um dos pequeninos, ou seja, até oferecer um copo d’água ao pobrezinho, a Ele se estará fazendo: “pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer;

eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar”.
Contemplando a parábola do pobre Lázaro narrada por Lc 16, 19-31, observa-se que Jesus trata de um assunto muito importante para vida dos seus seguidores e para vida da humanidade. Trata-se da questão da riqueza e da pobreza. Um assunto tocado por diversas vezes no evangelho de Lucas (Cf Lc 12,13-21; 21, 1-4) (leia também em Mateus 19,23; 6,24), Jesus disse: “Havia um homem rico que vestia roupas muito caras e todos os dias dava uma grande festa. Havia também um homem pobre, chamado Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas, e que costumavam largar perto da casa do rico. Lázaro ficava ali, procurando matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do homem rico. E até os cachorros vinham lamber as suas feridas. O pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão, na festa do céu. O rico também morreu e foi sepultado. Ele sofria muito no mundo dos mortos”.
Recorda-se que no tempo de Jesus uma pessoa como o Lázaro não tinha oportunidade de entrar no templo para rezar e nem pertencia à sociedade, pois era considerado uma pessoa doente e pobre. Os doentes eram vistos com pessoas impuras, assim eram excluídas porque não tinham valor para a sociedade, viviam mendigando pedaços de pão que caiam das mesas dos ricos.
Pensar no Lázaro do Evangelho de Lucas, inevitavelmente, nos faz pensar nos Lázaros de nossa sociedade que vivem pelas ruas e calçadas pedindo comida todo dia para sobreviver. Quantos Lázaros excluídos existem na cidade? Mendi- gando? Doentes? Tristes? Sem casa, sem salário? Desempregado, na prisão, migrantes, indígenas? Uma fileira de Lázaros e Lázaras – que a cada dia aumenta mais.
Existem, graças a Deus, muitas pessoas que tem vocação e coração de profeta que com o olhar da compaixão enxergam as pessoas que são consideradas pela sociedade o resto da humanidade, os últimos que não tem lugar nem valor econômico, porém ainda existem muitos grupos e comunidades cristãs que estão adormecidas e cegas, andando em torno de si, contaminados pela inércia.
Peçamos a Deus que o nosso testemunho comunitário, social e ético pelos pobres possa contagiar também os ricos, afim de não terem o mesmo fim do rico da parábola que no fim da vida, após festas e desprezo pelo pobre Lázaro foi para o inferno.



Por: Leomara Duarte



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