Arquidiocese de Manaus
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Jutaí – Artigo de Dom Sergio no Jornal Em Tempo – 13/7/2019

Município situado no Alto Solimões, faz parte da Prelazia de Tefé e tem uma história semelhante aos outros municípios da região. Viveu o ciclo da borracha com todas as suas grandezas e mazelas. Com o fim dos seringais, grande parte das pessoas migrou para as cidades. Ficou no interior uma população indígena importante e uma população local que se organizou em comunidades, lutou por reservas, aderiu aos planos de manejo. Hoje paira uma ameaça sobre esta organização: o garimpo, que promete riqueza fácil, mas que só traz destruição e morte. O núcleo urbano do município cresceu nos últimos anos. Jutaí é um lugar bonito, a beira do Solimões, na foz do Jutaí. Esta cidade está acolhendo, neste final de semana o quinto encontro das comunidades eclesiais de base da Prelazia de Tefé.
Um encontro de gente que luta para sobreviver nas difíceis condições da vida no interior do Amazonas, mas que acredita na força da organização das comunidades. Serão quase mil delegados e delegadas de todas as idades, representando as centenas de comunidades ribeirinhas, indígenas e urbanas que formam a Prelazia. Alguns como os que vem do município de Itamarati passarão quinze dias viajando entre ida e volta para casa. O que motiva esta gente toda a gastar tempo e dinheiro numa atividade aparentemente sem resultados palpáveis? Vendo a alegria dos participantes fica a impressão de que descobriram uma forma de viver que os realiza, são comunitários, partilham a vida, as dores, os sofrimentos, mas também a as alegrias que a vida traz. Descobriram que as coisas melhores nos são dadas de graça e que vivendo em comunhão a vida fica muito mais fácil de ser vivida. São pessoas convertidas ao ideal da vida dos primeiros cristãos. Ter um só coração e uma só alma é seu grande desejo e que não haja necessitados em seu meio, seu grande sonho.
Mas não ficam só curtindo a vida comum, lutam politicamente para que a sociedade seja mais igualitária e que os direitos de todos sejam respeitados. São Igreja e tem orgulho disto, embora sejam ecumênicos, respeitando a fé dos irmãos e sendo próximos de todos quando a vida está em jogo. São amazônidas, gente das águas, acostumados a dormir em rede, e a partilhar o pouco que tem. Grandes amizades surgem nestas ocasiões pois a hospedagem é nas casas das famílias.
Este é um Brasil desconhecido. Mesmo a Igreja em grande parte desconhece esta experiência de vida evangélica que acontece nos fundões do Brasil. Talvez o Sínodo da Amazônia torne mais conhecida esta Igreja feita de comunidades, de gente que ama a vida, que ri das adversidades, que sabe que Deus é criador de tudo e não abandonará o seu povo. Um povo que vive os valores do Reino aqui e agora. Apesar dos inúmeros compromissos em Manaus e do esforço físico que representa uma viagem até Jutaí, fui participar deste acontecimento que se reveste de salvação, num momento histórico em que parece que tudo o que acreditávamos perdeu o brilho. Não é verdade. O evangelho pode ainda empolgar e fazer vibrar o coração da gente. Gente amiga, sem pretensões além do bem viver.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 13.7.2019


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