Arquidiocese de Manaus

Dom Moacir Grechi, bispo – Artigo Em Tempo – 23/6/2019

Sempre me senti pequeno diante de Dom Moacir. A primeira vez que o vi foi a bordo de um
avião da VASP, quando chegava a Rio Branco para ser missionário no Acre, há quarenta anos.
Fui apresentado ao bispo pelo meu companheiro de missão. Me impressionou com sua
estatura e jovialidade e também sua juventude. Já era famoso naquela época pelas posições
que tomava na questão fundiária, pois era o presidente da Comissão Pastoral da Terra.
Naquele dia fomos direto para Feijó onde passaria os próximos cinco anos.

Alguns meses depois voltei à Rio Branco, numa viagem à Manaus para fazer compras para a
paróquia. Fiquei hospedado na casa de Dom Moacir. Causou-me grande impressão ser
recebido na casa episcopal. Eu, um jovem de vinte e cinco anos tratado com todas as honras,
pelo simples fato de ser um missionário da Prelazia vizinha. Como eram boas as conversas com
Dom Moacir. Como bom missionário ele sabia contar histórias, mas sempre tirando lições
profundas dos acontecimentos. Sentia nele alguém que amava o povo e que sabia muito bem
quem o escravizava e oprimia. Com ele não havia meio termo, quando se tratava de questões
sociais. Depois o encontrei em reuniões do CIMI, o Conselho Indigenista Missionário, e aprendi
dele o respeito pelos povos indígenas e o cuidado com aqueles que cuidam deles.

Vi também como era exigente consigo mesmo e como exigia um comportamento à altura da
missão de seus colaboradores. Era sempre o bispo, tinha consciência disto e agia como tal. Era
um devorador de livros. Sempre estava lendo um, e um dos conselhos que me deu, foi que nas
longas viagens no interior eu levasse livros difíceis de ler. Segui o seu conselho e me dei muito
bem. Mais tarde, já seu colega no episcopado, descobri o homem de oração. Rezava o terço e
era fiel à liturgia das horas. Como me edificou vê-lo junto com Dom Antônio Possamai, rezando
o terço nos jardins do Vaticano durante uma visita que fizemos juntos.

Quando me tornei Arcebispo de Manaus, não esperava encontrar Dom Moacir no meu
primeiro retiro com o clero de Manaus. Ele me colocou no meu lugar com a sua fina ironia,
mas ao mesmo tempo me ensinou a não ter medo de ser aquilo que era, bispo. Consciente de
tudo o que a tradição da Igreja coloca na pessoa do bispo, suas responsabilidades com a Igreja,
mas também com a sociedade, defensor dos pobres por causa do Evangelho, um homem
preparado intelectualmente, que não faz teatro, eis o bispo do Vaticano II. Me avisou que há
ocasiões quando toda a credibilidade da Igreja está em jogo e então é preciso ter coragem,
que nunca lhe faltou.

Considero uma das grandes graças da minha vida ter participado da Comissão da Amazônia
com Dom Moacir. Era um apaixonado pela região e pelo seu povo. Tinha a lucidez que só uma
vida de fidelidade pode dar. Foi até o fim. Não estará no Sínodo da Amazônia, mas penso que
será um dos ancestrais iluminadores da Igreja que daí vai desabrochar. Tinha grande respeito
pelos amazônidas, e seu sonho de uma universidade católica na Amazônia foi prova disto.
Continuemos a sonhar o sonho deste gigante, que nos deixou e foi para junto do Pai.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 23.06.2019



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *