Arquidiocese de Manaus
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Devemos ser uma igreja que permanece junto ao seu povo – Homilia da Solenidade de Corpus Christi

O arcebispo metropolitano de Manaus, Dom Sergio Castriani, fala ao povo de Deus por meio da homilia que segue abaixo, lida e interpretado pelo Pe. Zenildo Lima, por ocasião da Solenidade de Corpus Christi, ocorrida no dia 20 de junho, no Centro de Manaus.

Nesta, ele destaca as necessidades da presença da Igreja junto ao povo amazônida, especialmente os que estão em regiões muito distantes, de difícil acesso, ou nas periferias da cidade,  onde raramente se tem a Eucaristia. “Um povo que apesar de tudo guarda a fé da Igreja, e se não tem Eucaristia, tem fé eucarística”.

Confira na íntegra.

 


Senhores bispos e padres, que presidis a Eucaristia,

Povo de Deus que sois presença de Jesus como seu corpo na celebração eucarística,

O Senhor alimentou o seu povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou. O Salmo do qual este versículo é tirado e serve como antífona de entrada da missa de hoje, recorda o Êxodo, quando o senhor livrou o povo da opressão do Egito. Deus pode renovar as maravilhas que operou outrora com a seguinte condição, que ouça a voz do Senhor e ande em seus caminhos.

A Igreja que está na Amazônia foi convocada pelo Papa Francisco para escutar a voz de Deus que fala hoje pela voz dos povos indígenas esquecidos ou não levados a sério, dos ribeirinhos vistos como remanescentes de um passado que é preciso superar, da juventude que representa os sonhos de um mundo mais justo e mais fraterno, das nossas comunidades que com teimosia continuam a fazer seu itinerário de fé, comprometidas com a vida. Mas também ouvimos os cientistas, os ambientalistas, os responsáveis pela segurança. Não interessa ouvir aqueles que só visam o lucro imediato e não se importam em destruir, sem nenhum respeito pelos seres humanos do passado, do presente e do futuro.

E o que ouvimos nos deve preocupar a todos. As forças da morte parecem estar vencendo. Quando entra em campo o grande capital, não existe mais controle. Até o que foi conquistado nos últimos tempos em favor de uma ecologia integral parece estar retrocedendo. Somos convocados a continuar acreditando num destino comum para a humanidade e a necessidade de preservar a casa comum.

Hoje temos gente que, como em Melquisedec, abençoa-nos bendizendo o Deus criador de todas as coisas. Mas o sacrifício oferecido por Jesus na Cruz supera todas as bênçãos. Por isto, ele deixou um memorial que deve ser celebrado pelos seus discípulos ate a sua volta. A Eucaristia se torna a fonte da vida cristã e a igreja vive da Eucaristia e por causa Dela. As comunidades cristãs se reúnem aos domingos para fazer memória da Páscoa. Ela é tão importante para a vida e a unidade da igreja que para ser válida tem que ser celebrada com as palavras e os rituais aprovados pela igreja.

Uma das exigências é que o presidente da celebração seja ordenado para tanto. Em regiões como a nossa, onde os ordenados são poucos e as comunidades vivem distantes umas das outras ou nas periferias das grandes cidades onde o número de comunidades supera e muito o dos sacerdotes ordenados, boa parte dos católicos não tem acesso à Eucaristia dominical. Desde sempre, sacerdotes missionários heroicamente visitam rios e igarapés, paranás e lagos onde vivia e vive ainda um povo que apesar de tudo guarda a fé da Igreja, e se não tem Eucaristia, tem fé eucarística. Vive numa contínua ação de graça, reconhecendo em tudo a ação de Deus. Vivem o serviço na doação da própria vida, cuidando dos filhos, dos familiares próximos e, quantas vezes, dedicando-se aos serviços comunitários.

Dá-lhes vos mesmos de comer. Esta ordem de Jesus motivou tantos sacerdotes a dar a vida para que as comunidades tivessem a Eucaristia ao menos uma vez ao ano.

A Igreja formou celebrantes para garantir que a palavra seja anunciada. Mas continuamos, em muitos lugares, a ser uma igreja que visita. Devemos ser uma igreja que permanece junto ao seu povo que necessita não só batizar e casar, mas sobretudo se reconciliar, participar da Eucaristia e, quando chegar a hora final, ser ungido para o grande encontro.

O fato de termos acesso à Eucaristia com tanta facilidade e nos acostumarmos a ter missas em todas as ocasiões não nos ajuda a sentir o drama dos que não a tem. Peçamos a Deus que envie sacerdotes que se disponham a ir até as comunidades distantes e as comunidades das periferias, as comunidade pobres. Peçamos a Ele que surja uma nova solução eclesial madura, consciente para a falta de sacerdotes. Que as comunidades centrais compreendam quando o seu padre vai atender comunidades sem padre. Que a flor do trigo, o pão consagrado, seja alimento para todos nós na caminhada da vida e que o mel do rochedo, que é a doutrina de Jesus e sua palavra no Evangelho, dê sabor e força ao peregrino. Caminhemos juntos numa igreja sinodal, onde quem tem partilha e seja enriquecido pelo ser do irmão que lhe dá a alegria de viver.

Dom Sergio Eduardo Castriani, servo da Eucaristia.


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