Arquidiocese de Manaus
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Principal: Ecologia Integral – Pe. Ricardo Castro – Edição 163

O bioma Amazônico é o lugar próprio para refletir sobre a ecologia integral. Queremos aqui apresentar alguns aspectos importantes desta grande temática, seguindo as trilhas da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, ao mesmo tempo, tecer um diálogo com a realidade Amazônica, que com sua sócio-bio-diversidade nos interpela a uma nova vivência da fé cristã.

Para falar de Ecologia integral é fundamental apresentar alguns desafios do nosso tempo, nesta busca de ler e discernir os sinais dos tempos, para melhor responder aos apelos do Deus Criador. No primeiro capítulo da carta do Papa Francisco, há uma apresentação de fatos para que se compreenda a extensão do problema histórico que vivemos em nosso planeta – nossa Casa Comum. Em um estreito diálogo com as pesquisas científicas sobre o clima, o Papa adverte a humanidade sobre as mudanças climáticas, o aquecimento global que ameaça a vida do planeta,
o abastecimento de água e a biodiversidade. A degradação das fontes de vida do planeta afeta de modo abrangente e na sua totalidade a vida humana e os modos de convivência social. A crise ecológica afeta de modo particular a vida dos mais pobres e os países do sul do planeta, onde as políticas de controle ambiental e o saneamento não são prioritárias.

O nº 61 da Laudato Si’, descreve os aspectos da deterioração da Casa Comum. A poluição, resíduos e a cultura do descarte presentes de modo particular nos grandes centros urbanos. Manaus é uma cidade onde os esgotos a céu aberto e os igarapés que cortam a cidade estão todos poluídos. Grande parte do esgoto é jogado nos rios sem nenhum tipo de tratamento. A produção de lixo não possui políticas públicas e investimentos nos processos de reciclagem. A poluição do mundo natural repercute na qualidade de vida precária e na degradação social. A falta de uma cultura ecológica e de processos educativos de cuidado com a natureza, levam a sociedade de modo geral a um cuidado precário com seu ambiente natural.

Para adentrar a uma compreensão de ecologia integral, algumas questões pessoais e comunitárias locais precisam de nossa meditação. Como a poluição dos mananciais, dos igarapés e dos rios da Amazônia tem afetado a qualidade de vida dos povos da região? As grandes enchentes e vazantes dos rios da Amazônia, não seriam uma evidência clara das mudanças climáticas geradas principalmente pela ação do ser humano? Por que o Papa afirma que a biodiversidade é importante (32-42)? Quais são as ameaças à biodiversidade principalmente na Amazônia? Quais são os efeitos da degradação ambiental, dos atuais modelos de desenvolvimento e da cultura do desperdício na vida das pessoas (43-47)? Todos estes fatos que podemos detectar facilmente quando prestamos atenção ao contexto que vivemos, nos levam a compreender que existe algo profundamente problemático em nosso relacionamento com a natureza que nos leva a construir sociedades humanas que são destruidoras de nosso próprio espaço de vida. Existe também um problema sério no modo como estamos administrando os bens da natureza dentro de nossas estruturas
econômicas. Podemos incluir aqui também nossas relações sociais, nosso modo de entender o mundo em que vivemos.

A crise ecológica inclui várias dimensões de nossa vida que passa pelo mundo natural até o modo como tecemos relações e estruturas sociais. Estamos vivendo uma profunda e complexa crise socioambiental. Deste modo, para responder a esta crise multidimensional, precisamos de uma abordagem mais complexa, mais integral para combater a destruição galopante da natureza que gera um aprofundamento da situação de pobreza, que não somente exclui, mas mata a vida dos pobres e marginalizados.

Papa Francisco, no capítulo IV da Laudato Si’, articula de modo brilhante o cuidado da Casa Comum com a realidade social, política e econômica. O cuidado com a vida do planeta exige respeito, devoção aos ciclos e dinamismos da vida, acompanhado de justiça social, diminuição das desigualdades sociais. É necessário reconhecer as sabedorias de convivência com a natureza principalmente das comunidades indígenas e ribeirinhas que podem nos ajudar a vivenciar melhor a vida humana dentro dos contextos urbanos. A compreensão dos Ensinamentos sociais e ecológicos da Igreja e da Palavra de Deus, nos desafiam a um engajamento mais eficaz na luta pelo Bem Comum, pelo cuidado da Casa Comum e na solidariedade intergeracional. Que mundo estamos deixando para as futuras gerações? Como viverão os seres humanos do futuro?

“A Ecologia Integral abarca: ecologia ambiental, econômica e social (LS 138-142), ecologia cultural (LS 143-146) e ecologia da vida cotidiana (LS 147-155). Relaciona-se com o Bem Comum, clássico princípio da Doutrina Social da Igreja, e a opção preferencial pelos pobres (LS 156-158). Inclui ainda um princípio emergente consensual: a justiça intergeracional, compromisso para com as futuras gerações” (LS 159-162).

A Ecologia Integral nos convida à experiência estética (da beleza, do encantamento) e do estético (do que é bom e nos faz felizes). Principalmente na Amazônia, somos chamados a desenvolver nossa capacidade contemplativa e meditativa observando a beleza dos ecossistemas e de cada ser que nele vive e o constitui. Nossa reconciliação
com a natureza deve nos levar a amar, cuidar, admirar e nos encantar pelo mundo criado por Deus, falar a língua da irmandade franciscana com o mundo e suas criaturas.

Para uma espiritualidade da ecologia integral precisamos reconhecer que não há oposição entre o caminho para Deus e o respeito e cuidado com a natureza. Cuidar, respeitar e amar a natureza é condição para amar a Deus e ao próximo, tanto aqueles e aquelas que hoje estão ao meu redor, como aqueles e aquelas que virão futuramente habitar esta Casa comum.

Vislumbrar um outro modelo de vivência social, de economia e desenvolvimento, somente vai ocorrer quando nos convencermos que precisamos reduzir o nosso ritmo de produção e consumo, o que entendemos por tecnologia e ciência e aprendermos a nos libertar da tecnocracia.

Para compreender e vivenciar a ecologia integral precisamos adotar uma vida de maior gratidão e louvor ao nosso Criador, exercitando gestos de gratuidade e solidariedade, vivendo a vida como um grande dom. Perceber a interligação entre todos seres na comunidade da vida, ou seja, adquirir consciência de comunhão (vida eucarística) com Deus e todas as suas criaturas. Deixar-se sensibilizar, envolver-se, engajar-se, nos grandes dramas da humanidade hoje e, ao mesmo tempo, buscar comunitariamente as soluções criativas. Exercitar a sobriedade e a simplicidade de vida, vivendo do suficiente, partilhando, não acumulando, vivendo o estilo jesuânico e profético de modo ecológico. Cultivar uma vida pessoal de relação profunda com Deus e com a natureza na comunidade, com a ajuda de irmãos e irmãs na diversidade de culturas, religiões, caminhos espirituais e estilos de vida que aprofundam a vida humana. Praticar cotidianamente pequenos gestos de cuidado com a vida humana e com a natureza. Valorizando momentos de pausas necessárias, vivendo a espiritualidade sabática do descanso, da contemplação, dando tempo para você mesmo, para conviver, comer, dançar e sentir a presença do Deus que também contempla
o pôr do sol e ama crianças e animais.

PE. RICARDO GONÇALVES CASTRO
DIRETOR DO INSTITUTO DE TEOLOGIA, PASTORAL E ENSINO SUPERIOR DA AMAZÔNIA – ITEPES

 


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