Arquidiocese de Manaus
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Meu amigo Fredy – Artigo de Dom Sergio – Publicado em 28.4.19

Na vida convivemos com milhares de pessoas. Cada dia temos encontros efêmeros com homens e mulheres que serão, na sua grande maioria esquecidos rapidamente. Há outros que passam anos ao nosso lado sem nunca estabelecermos nenhum tipo de comunicação mais profunda. Fredy poderia ter entrado nesta segunda categoria na minha vida, mas não foi assim. Eu o conheci há vinte e seis anos quando cheguei em Roma para assumir o cargo de conselheiro geral da Congregação do Espírito Santo, para o qual havia sido eleito um mês antes. Já tinha estado na casa generalícia antes, mas agora vinha para morar. Logo descobri que alguns dos empregados, eram estrangeiros e dormiam na casa. Os novos que estavam chegando como eu fomos avisados que eram refugiados políticos do Sri Lanka. Fui cativado por eles desde o início.

Fredy era o mais velho. Havia deixado mulher e filho na terra distante. Seu sonho era juntar a família de novo. Sua vida se resumia no trabalho doméstico e sua única saída era às quartas-feiras quando ia a uma Igreja de São José fazer suas devoções. Nas suas primeiras férias mandei de presente para seu filho uma bandeira do Brasil, por que estávamos em tempo de copa do mundo, aquela que o Brasil ganhou da Itália nos pênaltis finais. Fredy ainda está no mesmo trabalho. Conseguiu trazer o filho para viver na Itália, mas ele tem sonhos diferentes do pai. Perguntei uma vez se ele não gostaria de voltar a viver no Sri Lanka, vi os seus olhos sempre tão vivos e expressivos, apesar de miúdos, uma expressão de pavor e medo. Não padre, lá nos matam.

Não sei se ele perdeu parentes nos atentados do Domingo de Páscoa, na capital do Sri Lanka, Colombo. Mas, com certeza deve ter perdido amigos e conhecidos. Os católicos na ilha são minoria, mas minoria atuante e por isso sentidos como ameaça à hegemonia budista no país. Fica difícil entender que budistas, sempre amantes da paz, tenham realizado mais este ato hediondo contra seus concidadãos. Atos terroristas são irracionais e só conseguem semear mais ódio. Talvez seja este o objetivo, impedir a reconciliação entre as religiões. No entanto, eles são a ponta do iceberg. Existe gente por trás dos acontecimentos. Se há homens como o meu amigo que diante da situação, não fogem, mas preferem distanciar-se esperando por dias melhores, há os que revoltados servirão aos senhores da morte como homens bombas, consumindo-se no ódio ao outro.

No meio de tudo isto, quantos são humilhados como estrangeiros nos quatro cantos da terra, quanta amargura por ter tido que abandonar sua pátria, com a sensação de derrota. Por isso, os atentados em Colombo respingam em todos nós. Somos católicos como eles. Participamos da mesma Eucaristia, formamos um só corpo em Cristo. Mas, antes de tudo, somos parte de uma mesma humanidade que é capaz de matar seus semelhantes. A violência só quer uma desculpa para explodir. Palavras podem produzir tragédias. Lideranças tresloucadas podem provocar o ódio contra minorias. Que a não violência seja a nossa força. Não cedamos nunca à tentação da prepotência e da lei do mais forte.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 28.4.2019

 



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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