Arquidiocese de Manaus
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O Carnaval – Artigo Dom Sergio – 3/3

O carnaval já começou semana passada com fechamento de ruas, desfile de blocos e muita música de vários estilos. O povo na rua, na manhã de domingo, atestava o sucesso dos principais blocos carnavalescos da cidade. Gosto de carnaval, mas acho um exagero começar a folia antes. Se tudo vira carnaval, nada mais é carnaval porque uma das características deste tipo de festa e ser um espaço de liberdade, onde os homens se vestem de mulher, políticos são satirizados e símbolos sagrados são manuseados sem consequência para atos que seriam considerados sacrílegios em outros contextos. Ora, se isto vira normalidade teremos uma sociedade degenerada e corrompida nos seus hábitos e costumes.

Os dias de carnaval devem ser contidos em fronteiras de espaço e tempo. E a dignidade da pessoa humana deve sempre ser respeitada. Vivemos num mundo em que tudo é permitido como se vivêssemos num carnaval eterno. O problema é que a mesma sociedade permissiva não perdoa nada e nem ninguém. Se você pegar uma doença sexualmente transmissível sentirá com certeza toda espécie de preconceitos e pouquíssima solidariedade. Se gastar todo o seu dinheiro na farra, será abandonado pelos amigos que só são amigos até o limite da partilha.

Um número crescente de pessoas vem decidindo passar o carnaval de forma alternativa, fazendo retiros espirituais e encontros de aprofundamento da fé. São formas diferentes de passar o carnaval, mas não é tão diferente assim. A primeira coisa é criar um espaço alternativo ao dia a dia que pode ser massacrante. É tempo de criar novas relações e viver uma fraternidade que ultrapassa os laços de família e nos possibilita conhecer melhor o outro e a nós mesmos. A Igreja não é contra o carnaval, mas, como todo mundo que tenha simplesmente bom senso, será contra os excessos que podem fazer muito mal às pessoas.

Faz bem às pessoas se identificar com a escola de samba do bairro. Cria raízes. Como é bonito ver as avós da comunidade descendo a avenida na ala das baianas. A fantasia é o lugar do sonho. Fantasiar-se é assumir por um tempo uma outra personalidade, talvez aquela que gostaríamos de ter, mas que a vida não permitiu. Em tempos de crise o carnaval pode ser uma válvula de escape. Talvez alguém criticaria a fuga da realidade. A festa, no entanto, nos possibilita experimentar a verdadeira dimensão do real que não se esgota nos problemas da vida e nas situações desesperadoras. Quando os palhaços entram numa ala de hospital onde estão crianças em estado terminal e levam um sorriso àqueles rostos sofridos, não estão alienando aquelas crianças, mas estão colocando naquelas vidas uma Vida que supera toda a dor.

O carnaval, evidentemente não faz parte da liturgia da Igreja, mas é determinado por ela. A Quarta-Feira de Cinzas marca o início da caminhada quaresmal rumo a Páscoa. Como a quaresma é tempo de penitência a terça-feira seria um dia de despedida da carne como alimento, mas sobretudo no sentido de uma vida carnal oposta a uma vida espiritual. Talvez, se voltássemos a viver os tempos corretamente, teríamos uma melhor saúde mental com menos estresse e depressão.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS

JORNAL: EM TEMPO

Data de Publicação: 3.3.2019


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