Arquidiocese de Manaus
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Pe. Sousa

Luís Gonzaga de Sousa era seu nome completo. Presbítero da Arquidiocese de Manaus, partiu deste mundo domingo passado, depois de ter celebrado missa em honra da Sagrada Família, quando visitava amigos no final de um domingo. Padre há quarenta oito anos, celebrava com o mesmo entusiasmo de seu tempo de juventude. Na homilia daquele dia ralhou com o Menino Jesus que não devia ter feito o que fez com seus pais, permanecendo em Jerusalém e causando preocupação para eles, com aquele vozeirão que lhe era tão característico. O Sousa como nós o chamávamos era padre, e só padre, e isto não é pouco. E como ele gostava de ser padre, de fazer as coisas de padre.

A celebração da Santa Missa começava muito antes dos ritos iniciais. Ele chegava com tempo para conversar com as pessoas, se inteirar dos acontecidos, que ele cochichava mais à frente em busca de mais informações. Ali ele se transformava num diretor espiritual e conselheiro do povo simples das nossas comunidades. Daquelas pessoas anônimas que se aproximavam silenciosas do seu caixão durante o velório. Batizou várias gerações, atendeu milhares de penitentes no sacramento da reconciliação e ungiu inúmeros enfermos preparando-os para o encontro definitivo com o Criador.

Morreu entre amigos. Ninguém melhor que ele para cultivar amizades, sobretudo com seus irmãos de presbitério. Gostava de receber-nos na sua casa nas festas de aniversário, na Páscoa e no Natal. Estava preparando uma viagem à Pernambuco para rever um amigo padre que trabalhou um tempo em Manaus. Era o dia da Sagrada Família. Mais família que ele, impossível. Nunca saiu de casa, e a sua família, assim como o seu bairro se tornaram família para muitos. Nestes tempos de Sínodo da Amazônia em que a Igreja faz um caminho de descoberta do seu rosto amazônico, penso que seria bom olharmos para este sacerdote filho da terra, incardinado numa Igreja da Região, que viveu seu ministério com o povo daqui e que foi um homem feliz e realizado.

Para ele inculturação foi prática diária. Devoto do Sagrado Coração de Jesus, estava sempre cercado de homens e mulheres vestidas de branco com fitas vermelhas ao redor do pescoço. Símbolos que vieram de fora, mas que usados por estes amazônidas adquiriram outros sentidos humanos e afetivos. O Apostolado da Oração embora na aparência seja igual em todo lugar, aqui é vivido de forma diferente. O Sousa vascaíno, amante do boi de Parintins, adepto de uma boa caldeirada, cheio de segredos como só o caboclo sabe ser, com seus receios e medos ancestrais e o padre eram um só.

Eu o conheci no primeiro Encontro Nacional de Presbíteros. Na minha ordenação episcopal em Tefé ele esteve presente. Nos tornamos amigos e quando me tornei seu bispo, sua opinião, não sempre seguida por mim, sempre foi muito importante. Sempre vi nele um discípulo de Jesus amazônico que amava a sua Igreja, plenamente consciente dos seus limites pessoais e das mazelas do Povo de Deus. Renovado pela misericórdia divina, encarnada no Coração de Jesus, tornou-se um homem universal, um verdadeiro sacerdote do Senhor. Vai fazer muita falta.



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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