Arquidiocese de Manaus
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Mais uma vez…

No Evangelho de Lucas há um relato interessante. Jesus conversa com seus discípulos sobre dois acontecimentos trágicos. O primeiro era a história de uma torre que caíra e matara um punhado de gente; o segundo era o assassinato de judeus por parte de Pilatos. Comentando Jesus perguntou: será que estes que morreram nestas tragédias eram piores que os seus ouvintes? Era como se dissesse que aqueles que morreram mereciam morrer e eles não. E termina dizendo que se não mudassem de vida pereceriam todos do mesmo modo. Este trecho do Evangelho sempre me vem à mente quando acontece um ataque terrorista com a sua insensatez total, atos de guerra de grandes potências contra povos indefesos, mas também desastres naturais ou provocados pela incúria humana. O meu primeiro pensamento é sempre o de que eu poderia estar lá, naquele avião que caiu, naquela casa que desabou, na passagem de um furacão, no epicentro de um terremoto. Foi também minha primeira reação quando soube do incêndio que consumiu o Bodozal, como é conhecida aquela parte do Bairro de Educandos.

Lembrei-me do bairro que ficava num fundão. As casas, quase todas de madeira, apinhadas uma sobre as outras numa formação de labirintos frutos da ocupação. Imaginei o desespero das pessoas que deviam ter perdido tudo. Imediatamente me deu vontade de estar lá e de fazer alguma coisa. Embora sejam tragédias anunciadas, pois todos conhecem as condições de segurança destes bairros de Manaus que cresceram como fruto de ocupações e que hoje são um desfio para os urbanistas, sempre nos assustam. E quantos outros bairros estão na mesma situação? As soluções para o problema não são fáceis e seria necessário um planejamento e uma ação a curto, médio e longo prazo que ultrapassa as administrações municipais e não podem se resumir a um ou dois mandatos. É o problema maior da moradia, que não se resolve nunca. Quando acontece a tragédia buscam-se culpados. Cada um tem sua parcela, por que no mínimo somos omissos. É claro, porém, que alguém não fez o dever de casa. Enquanto os responsáveis não forem punidos de alguma forma estas tragédias continuarão a acontecer.

Mas, impressionante foi a rede de solidariedade que se formou. Já na madrugada começou a se formar uma grande rede onde todos entraram. As Igrejas, como não podia deixar de ser, colocaram as suas estruturas à disposição dos sinistrados. O Estado e a Prefeitura, através das secretarias de cunho social, se mobilizaram rapidamente. Manaus mais uma vez deu provas de fraternidade e de solidariedade. É bonito ver isto acontecer no tempo do Natal. Um Natal que não será esquecido tanto por aqueles que viveram a dor de tudo perder quanto pelos que deram um pouco de si para minorar a dor do irmão.  Uma das frases que circulou foi: Somos todos Educandos. É esta a lição que fica: somos todos irmãos e por isso não podemos ficar indiferentes. Não só quando o fogo consome um bairro inteiro, mas também quando seres humanos vivem em condições sub-humanas ao lado de igarapés fétidos, em terrenos alagadiços ou simplesmente na rua. Que a solidariedade vivida neste tempo de natal se transforme em políticas públicas que tragam o bem viver para todos.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS

JORNAL: EM TEMPO

Data de Publicação: 22.12.201800


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