Arquidiocese de Manaus
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A Escritura diz – Artigo no Em Tempo de 23/9

Existe uma maneira católica de ler a Bíblia? Para a Igreja a liturgia é o lugar privilegiado da proclamação da Palavra. Na Eucaristia, Cristo está realmente presente nas duas mesas, a da Palavra e a do pão e do vinho. Nas Igrejas, ao lado do altar temos o ambão que de acordo com as normas litúrgicas tem a mesma dignidade. Esta forma de ler e proclamar a Palavra mostra claramente que a leitura bíblica é antes de tudo um ato eclesial, isto é, da Igreja e que a leitura individual embora importante e fundamental está num segundo plano.

A Igreja tem um ciclo de leituras na liturgia diária e na dominical. Num ciclo de três anos quem for à missa todos os domingos escutará praticamente a Bíblia inteira. O mesmo na liturgia diária, só que neste caso num ciclo de dois anos. É significativo que na liturgia não é o celebrante que escolhe as leituras a serem proclamadas mas é a Igreja, evitando assim toda a tentação de manipulação do texto sagrado e de certa forma forçando os que fazem homilia a descobrir, através do estudo e da meditação, o que Deus quis e quer falar para o seu povo, numa busca constante e comunitária da vontade de Deus que se revelou na história e de maneira definitiva em Jesus Cristo.

Uma característica da leitura bíblica na Igreja católica é que ela sempre leva em conta que o texto tem um contexto. Nenhum texto bíblico existe isolado. Ele foi escrito num contexto histórico e cultural na linha da encarnação do verbo e da inspiração do Espírito. O texto é de origem divina mas também é sempre humano. Daí a necessidade dos estudos bíblicos, do conhecimento das línguas nas quais a bíblia foi escrita, dos contextos geográficos, políticos e sociais em que a revelação se deu. Mas também é preciso conhecer o contexto em que a bíblia está sendo lida. A revelação de Deus continua, muito embora a Igreja considera normativa a revelação contida nos livros canônicos, que aliás foram assim definidos pela Igreja. É bom sempre lembrar que a Igreja existe antes das Escrituras que foram escritas pelas primeiras comunidades eclesiais.

No Brasil temos a experiência dos círculos bíblicos, onde a Palavra de Deus é lida a partir da vida e sempre se procura tirar as consequências práticas também para a vida social da palavra lida e meditada. Uma outra maneira de ler a bíblia, sempre presente na história da Igreja, é a arte que brota das Sagradas Escrituras. Nas grandes catedrais através dos vitrais, mas também nos ícones e imagens, na música sacra, a palavra de Deus se torna arte e se propaga através do belo.

Há sempre o perigo da manipulação da Palavra, até o demônio fez isto ao tentar Jesus no deserto. Por isto a Igreja católica, mesmo incentivando a leitura pessoal e orante das Sagradas Escrituras, lembra que existem critérios de leitura que a experiência eclesial foi solidificando através dos séculos e que se constitui no magistério e na tradição eclesial. A escritura como único critério de revelação e de fé tem convertido milhões de pessoas e tem sido caminho de encontro com Deus e a Igreja insiste em conservar a sua tradição consciente também dos frutos de salvação que esta tradição e jeito de ser produziu na história, já longa e provada.

Dom Sergio Eduardo Castriani – Arcebispo Metropolitano de Manaus

 

MATÉRIA DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 23.09.2018


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