Arquidiocese de Manaus
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Suicídio

O primeiro texto que eu li sobre este tema foi um artigo na revista Realidade, no final dos anos sessenta. A mãe de um colega havia tirado a própria vida e juntos procurávamos explicações para seu gesto. Não encontramos. Só ficamos sabendo que o suicídio era um fenômeno muito mais frequente do que imaginávamos e que ela estava na companhia de muita gente. Pessoas de todas as classes sociais e de todas as idades e credos fazem parte desta lista que nos assusta, amedronta e entristece, sobretudo quando se trata de alguém próximo de nós. É difícil achar explicações para um gesto tão extremo, porque o único que poderia dar uma resposta já está morto.

Na minha juventude vivi uma experiência de perda que me marcou profundamente. Quando estudante de teologia fui professor numa escola de ensino fundamental para jovens e adultos. Os alunos vinham direto do trabalho para a escola que ficava ao lado de uma das estradas mais movimentas na época, a via Anhanguera que liga São Paulo à Campinas. Numa noite uma das alunas, de quinze anos apenas, se jogou na frente de um carro pondo fim a uma vida que prometia tanto. Entrei numa crise existencial profunda e tive a minha primeira experiência de luto. Várias questões me atormentavam: Por que alguém faria isto? Por que nós que convivíamos com ela não pudemos fazer nada? Teria sido possível prevenir? Um sentimento de culpa me acompanhou durante um bom tempo e hoje ainda, depois de tantos anos, ele de vez em quando volta.

Já bispo acompanhei famílias que perderam desta maneira filhos jovens. Nos nossos dias, o suicídio é uma realidade, como sempre difícil de ser abordada. Mas é necessário fazê-lo, não por razões mórbidas, mas para prevenir. Esta semana veio a público uma obra que tem como título “Suicídio”. Organizada por Denise Machado Duran Gutierrez e Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, o livro trata o fenômeno de forma interdisciplinar. Começando com um capítulo que apresenta a reflexão filosófica, através da história, o livro apresenta temas como o suicídio entre idosos. Todo o conteúdo é baseado em pesquisas primorosas do ponto de vista científico, o que coloca os autores numa posição de vanguarda nos meios acadêmicos. O livro se insere num esforço coletivo de chegarmos a ter políticas públicas que ajudem na prevenção.

Ele reflete a indignação de quem se defronta com tendências suicidas em crianças e adolescentes abusados sexualmente e em idosos que perderam o gosto de viver. O suicídio é um fato e tornou-se uma questão de saúde pública. Gesto radical da liberdade humana, permanecerá um mistério. Mas é necessário que falemos dele para o bem dos que ficaram. É preciso evitar sentimento de culpa, mas suscitar responsabilidades. Somos carne da mesma carne e por isto não podemos ficar indiferentes. A ciência não é neutra, começando pelos fenômenos que decide investigar. Ao abordarem este tema os autores se recusam ao conformismo e fazem uma opção pelos mais pobres dos pobres, por que perderam ou lhes foi roubada a própria vontade de viver. Juntando amigos, familiares, expoentes do mundo acadêmico, os organizadores nos brindaram com uma noite inesquecível, onde não faltou poesia e culinária que alegram a vida.

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus

JORNAL:  EM TEMPO

Publicado em 02.09.2018



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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