Arquidiocese de Manaus
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Ser Família

Nas comunidades católicas do Brasil, três canções do Pe. Zezinho podem ser entoadas de Norte a Sul e todos, quase que sem exceção, as conhecem e cantam com entusiasmo. A primeira começa com a seguinte frase “um dia uma criança me parou”, e de maneira singela apresenta a vida cristã como um caminho para ser obter os mesmos sentimentos de Jesus, o que na teologia e espiritualidade paulina é sinal de maturidade. A segunda invoca Maria de Nazaré, eleita pelo povo Senhora e Mãe do céu, numa poesia que apresenta o mistério da encarnação e o fundamento da devoção à Maria, a mãe de Jesus, que como pessoa humana foi educado por ela e com ela aprendeu a ser gente como todas as crianças do mundo. A terceira é a Oração da Família. Todos gostam de cantá-la porque exprime o desejo profundo de termos uma família de verdade. Mesmo em tempos de crise e de redefinição de papeis sociais, intuímos que nada somos, ou somos muito pouco sem nossas famílias. É nelas e através delas que nos inserimos na história.

Temos passado porque temos família, porque avós, tios e tias nos lembram sempre de onde viemos, são nossas raízes. Com eles aprendemos a falar, a pensar e a sentir, deles herdamos nacionalidade, cultura, pátria e religião. Temos futuro porque temos filhos, filhas, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas que continuam no tempo nossos ideais, nossos amores, nossos sonhos. Temos presente porque vivemos em lares e em unidades familiares, com pessoas que nos amam por aquilo que somos, que são solidárias conosco nos momentos difíceis, que nos dizem a verdade mesmo quando esta dói ou gera conflitos.

Nossas famílias são o que nós somos, fortes e frágeis, generosos e egoístas, mesquinhos e idealistas, ambíguos. Elas refletem a sociedade em que vivem, com seus sonhos de consumo, sua violência, seus ideais equivocados, mas também sua generosidade, criatividade, desenvolvimento e avanços tecnológicos. São desafiadas por tempos novos, de fragmentação, pluralismo religioso, novas tecnologias, uma nova consciência de liberdade e autonomia individual, de superação de preconceitos, de destino comum frente a crise ecológica.

Tudo o que fizermos pelas nossas famílias é pouco. Cabe ao poder público criar condições de trabalho para todos, condições de moradia dignas, educação e saúde de qualidade, segurança. Cabe à Igreja anunciar a Boa Nova da família cristã, que vive segundo o Evangelho e que realiza o mandamento novo, que é o do amor mútuo, um mandamento que só pode ser vivido plenamente em família e em comunidade, pois trata-se de amor recíproco que supõem ao menos duas pessoas.

O fato de que nem sempre as famílias, por mil razões, não consigam realizar este ideal, não aponta para o seu fim, mas ao contrário aponta para a necessidade de continuarmos a sonhar com uma família bem constituída para todo ser humano e gastar nossas energias para que este sonho se torne realidade. Que Deus abençoe nossas famílias, e que nelas e com elas sejamos mais felizes, mais realizados, mais humanos. Lembrei-me desta crônica no velório de Dona Inácia, quando seu filho padre pediu que cantássemos a “Oração pela Família”.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus

JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO

Publicado em 26.08.2018

 



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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