Arquidiocese de Manaus
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Trabalho e honestidade

Foi no velório de um pai que ouvi, nestes dias, um filho cheio de emoção dizer que a maior herança que deixara para ele e seus irmãos era o amor ao trabalho e a honestidade. Contou aos presentes que o avô de seus filhos dizia, e deve ter dito muitas vezes, que se alguém achasse um prego e soubesse de quem era deveria devolvê-lo ao dono, e se não soubesse deveria deixá-lo onde estava. Como as parábolas de Jesus esta pequena alegoria encerra uma sabedoria que possibilita que homens e mulheres possam conviver em paz e sem medo uns dos outros. Naquele mesmo dia, numa celebração de aniversário ouvi alguém dizer como era bom celebrar a vida de uma pessoa que havia escolhido um caminho de doação da própria vida em favor dos outros.

Nesta semana instalamos o Comitê de Combate a Corrupção Eleitoral, que estará atento e preparado para levar à justiça os casos de compra de votos e de uso da caixa dois nas eleições deste ano. Estamos com fome e sede de justiça e queremos simplesmente honestidade e que a coisa pública seja tratada como coisa pública. Estamos todos cansados com a farra que se faz com o dinheiro dos impostos. Precisamos de um choque de honestidade e de amor ao trabalho. Não podemos mudar o mundo, mas podemos começar por nós mesmos. Antes de apontar com o dedo em riste para os outros que tal fazer um exame de consciência e olhar com coragem o meu comportamento moral. A desculpa de que todo mundo faz assim e que assim se fará sempre, e que, portanto, quando chega a minha vez eu tenho que aproveitar, impede uma verdadeira mudança cultural que valoriza o jeitinho, a esperteza e o engano. Uma nova sociedade só se fará com homens e mulheres novos.

Nestes dias fomos informados pela imprensa que o número de homicídios aumentou. Mata-se cada vez mais e as vítimas são sobretudo jovens. Temos que nos perguntar qual a parte de responsabilidade que nos cabe em tudo isto. Não basta fazer leis e elaborar estatutos. A religião sempre foi vista como a guardiã da moral e dos bons costumes. Porém, quando ela se transforma em entretenimento religioso ou um meio para obter vantagens espirituais e temporais ela perde o seu apelo ético. Creio que em tempos de crise como o nosso temos que voltar à ideia do homem justo, que não partilha a vida dos corruptos. Não adianta esperar reformas de onde não virão. Comecemos por baixo sendo fermento de uma nova sociedade. Mais que luz, sejamos sal que impede a degeneração moral que começa nas pequenas coisas. Tenhamos horror ao mal e conquistemos o nosso lugar pelo trabalho.

O corrupto quer o ganho fácil e imediato e isto será sempre uma tentação. E quando isto aparece como prova de inteligência e esperteza, o estrago está feito. A violência que hoje campeia na sociedade tem aí uma de suas causas, por que vivemos num ambiente de vale tudo. Oxalá se multipliquem os justos e tenhamos uma melhor sorte que Sodoma e Gomorra. E pelo testemunho daquele filho no velório do pai sabemos que eles existem, precisamos abrir os olhos para enxergá-los não só depois que morreram.

 

MATÉRIA DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – ARCEBISPO METROPOLITANO DE MANAUS
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 10.6.2018


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