Arquidiocese de Manaus
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Vidas truncadas

Nas últimas semanas quando saio para a caminhada matinal me deparo com um grupo de jovens adultos, na sua maioria rapazes, mas também algumas moças, com documentos em baixo do braço. Em geral estão cabisbaixos e com a aparência de quem não faz uma refeição digna há muito tempo. Os olhos estão fundos, denotado as noites mal dormidas. Aqui e acolá um mais extrovertido fala e fala em espanhol. São migrantes venezuelanos que vem ao escritório da Cáritas em busca da regularização da sua permanência no Brasil. Vem também procurar trabalho e cursos que os ajudem a se integrar no país que os recebe. Perto dali, mais próximo da Avenida Sete de Setembro continua a fila dos desempregados que desde a alta madrugada se forma a cada manhã. Sinto um certo constrangimento ao passar por estas filas, tendo em vista as minhas seguranças. Sinto no ar a dor do desemprego e a maldade de um sistema econômico que exclui tantos cidadãos e no caso dos venezuelanos, os obriga a deixar família, pátria, amores e sonhos.

A primeira impressão é a de que são pessoas que vem passando fome há muito tempo. Moças elegantes, com roupas de festa, com a pele amaciada e com as pernas afinadas, num evidente estado de anemia e desnutrição. Rapazes magérrimos e alguns com traços femininos acentuados sentados no chão, numa evidente mostra de cansaço. Fico imaginando as suas histórias e o que deixaram para trás. Não tem ares de revolta no seu semblante, parecem resignados ou simplesmente cansados. Cumprimento-os ao passar, procurando mostrar respeito e evitando qualquer curiosidade mórbida sobre o seu passado. Tento me colocar no lugar deles e tratá-los como gostaria que me tratassem se estivesse na mesma situação. Conheço já alguns que estão nas nossas comunidades. São pessoas normais que tiveram a vida transtornada por uma ditadura perversa, porém travestida de populismo.

Pessoas simples que viviam honestamente se viram de repente sem meios para sobreviver. Um governo que penaliza assim sua população é ilegítimo e se os governantes tivessem algum amor pelo povo já teriam renunciado há muito tempo, pela razão muito simples de não serem capazes de fazer a lição de casa e garantir comida para o seu povo. Um povo digno, culto está sendo humilhado. Do ponto de vista teológico é uma situação que clama aos céus e com certeza Deus fará justiça. A nós compete dar uma resposta emergencial. Tive fome e me destes de comer. E basta esta palavra do Evangelho como motivação.

E o milagre da solidariedade acontece e com ela vem a conversão do coração. Como tem sido edificante a convivência com os irmãos latino americanos como nós. Hoje, a Venezuela tem rosto e nome, e deixou de ser somente um lugar bom para fazer compras. Como é bonito ver comunidades, paróquias e instituições da nossa Igreja se irmanando com pessoas que até ontem eram desconhecidas. Mas como dói no coração ouvir comentários preconceituosos e maldosos, que graças a Deus tem sido poucos. Creio que a generosidade do nosso povo vai dar frutos também para os doadores, pois como diz a canção “fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas”.

 

MATÉRIA DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 6.5.2018

 


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