Arquidiocese de Manaus
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Satanás

Todos os anos no primeiro domingo da quaresma a Igreja proclama o Evangelho que narra as tentações de Jesus no deserto. Neste ano ouvimos a narrativa de Marcos. Sóbria, ela só diz que ele ficou no deserto quarenta dias, e que aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens e os anjos o serviam. O cenário é impressionante. No deserto não há nada nem ninguém. O retirante está só e não tem com quem falar. Está na presença de Deus e de si mesmo. É difícil saber qual a mais difícil de enfrentar. Jesus foi ao deserto levado pelo Espírito antes de começar seu ministério. Marcos não nos diz em que Jesus foi tentado, como fazem os outros evangelistas. Só diz quem o tentou. Esta figura tétrica que aparece nas Escrituras e que é difícil de ser entendida pois a sua identidade é ser o pai da mentira e seu modo de agir é sempre a dissimulação e o engano.

 

Só no deserto onde os sentidos estão livres, a verdade pode ser encontrada e o demônio vencido. Quais eram as motivações profundas de Jesus para anunciar o Reino e a sua urgência. Que reino ele ia anunciar, o de Deus ou o dele? Um reinado de Jesus na terra, começaria muito bem com a transformação de pedras em pão. Saciaria a fome do povo e eliminaria o trabalho. A terra não precisaria mais ser cultivada e a riqueza seria imediata. O reinado de Jesus poderia ter sido um reino de fantasia e espetáculo, começando com um voo rasante do pináculo do templo para deleite da plateia. Mas a tentação maior foi a de fazer do reino de Deus um reino deste mundo baseado no poder e não no serviço.

 

Todas estas opções eram possibilidades reais para Jesus, muito embora a garantia dada por Satanás não valesse nada. Jesus ao vencer as tentações deu o sentido da sua missão. Mas as tentações voltariam no decorrer de sua vida pública. E são as tentações da Igreja em todos os tempos. Dostoievski quando apresenta o diálogo de Jesus com o Grande Inquisidor, coloca muito bem a loucura que foi a opção de Jesus, que necessariamente deveria ser corrigida pela Igreja. O uso da força, do engano e das soluções fáceis seriam as formas de se estabelecer um reino.

 

As tentações continuam atualíssimas. Quando hoje se fala em corrupção é bom lembrar que o corrupto em geral é um homem de bem, merecedor da confiança dos que o elegeram. Infelizmente caiu na tentação do dinheiro fácil e da fortuna sem custo. Só uma sociedade que valorize o trabalho honesto, o serviço voluntário, a palavra dada, gerará políticos e homens públicos a altura do que se espera dos mesmos. A tentação da ostentação e da teatralização continua tão atual como foi para Jesus. Basta pensar nos reality shows. O próprio culto a Deus se transforma num entretenimento alienante. Em tempos de transparência, em que a vida se desnuda nas redes sociais não é fácil entrar no deserto e fazer silêncio para aí encontrar-se com Satanás e desmascará-lo. Ele gosta do barulho ensurdecedor que nos impede de ouvi-lo e do excesso de informações atrás do qual ele se esconde. Só quem tem a coragem de vê-lo de frente poderá vencê-lo e anunciar o Reino de Deus, converter-se e crer no Evangelho. Uma boa quaresma!

 

MATÉRIA DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus

JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO

Data de Publicação: 18.02.2018

 

 



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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