Arquidiocese de Manaus
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Para não esquecer

Na segunda-feira de Páscoa de 2013, quando a Igreja ainda celebrava solenemente a ressurreição de Jesus, celebrei pela primeira vez a Eucaristia, junto ao Cruzeiro da Avenida Timbiras, na Cidade Nova, juntando-me assim a um movimento que surgiu a partir das comunidades católicas daquela área. A intenção era que ali fosse construído, além de um velório e uma capela, um memorial para lembrar as vítimas da violência. A cidade foi crescendo e as vítimas da história da Amazônia: indígenas, seringueiros, mulheres e crianças exploradas, foram se juntando as vítimas de uma urbanização em geral não planejada e feita num ritmo alucinante. São crianças que crescem sem escolas de qualidade, famílias desagregadas, mortos no trânsito, vítimas do crime organizado com queima de arquivos e violência para garantir pontos de venda e de tráfico de influências.

A história está cheia de vítimas. Em todos os tempos homens, mulheres, jovens e crianças morrem prematuramente vítimas inocentes de sistemas que se sustentam pela eliminação de opositores e indesejados. A história dos grandes impérios, seu poderio e grandes realizações sempre se fizeram a custa de muito sangue derramado. Muitas vezes as vítimas nem tem consciência da razão de seu sofrimento e morte. Hoje às vítimas de sistemas de poder que querem se perpetuar indefinidamente se ajuntam as vítimas da violência urbana.

Não podemos esquecê-las.  Não se trata de vingança, mas de restauração da verdade para que a violência não se perpetue e não se repita indefinidamente como se não houvesse outra saída para os seres humanos senão submeter-se aos instintos mais perversos de quem tem a possibilidade de torturar e matar, quer seja o Estado, o crime organizado, ou mesmo seres humanos dominados pelos que de pior existe em nós. As pessoas que morreram e que morrem de forma violenta partilham conosco a humanidade. Por natureza somos solidários a elas. Seu destino é também o nosso. Aquilo que sofreram nos atinge e devemos às vítimas muito daquilo que temos, de maneira especial democracia, consciência dos direitos humanos e muito mais.

Como cidade não podemos esquecê-los. Mesmo porque a violência continua. Não podemos nos acostumar aos seus horrores e sua insensatez.  Por isso apoiamos a ideia de ter um lugar, um memorial onde todos os que morreram violentamente sejam lembrados, onde possamos rezar por eles, e através deles, onde possamos pedir perdão pela nossa omissão e onde possamos sonhar com um mundo sem violência construído sobre outros valores. Será também um memorial da Paz. Toda primeira segunda-feira do mês estamos convidados a fazer esta memória e, oxalá, se concretize o sonho deste lugar onde a semelhança de outros memoriais no mundo fique guardada a memória de seres humanos que vítimas da própria humanidade tiveram suas vidas transformadas em semente de uma nova sociedade.

Amanhã, depois de quase cinco anos inauguraremos as salas para velório, faltando a capela e o memorial. Antes faremos uma caminhada pela paz. O início de um novo ano é tempo propício para renovar a esperança, mas também o compromisso de fazermos tudo para superar a violência. É a nossa pequena contribuição para um mundo melhor.

MATÉRIA DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 31.12.2017


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